Moradora descobre R$ 380 esquecidos num banco antigo pelo sistema do Banco Central e, na mesma semana, recebe mensagem falsa pedindo Pix para liberar o valor

O Banco Central não cobra taxa nem manda link para devolver dinheiro esquecido: o resgate é feito só no site oficial

Vista de cima de uma mesa de madeira com um pote de vidro com moedas, um cartão plástico antigo sem marca, um caderno aberto, óculos e uma caneca, na luz suave da manhã

Juliana e os R$ 380 da conta antiga

Juliana tem 33 anos e dá aulas de português numa escola municipal de Belém. Num domingo à noite, a irmã contou no grupo da família que tinha achado R$ 57 esquecidos pelo sistema do Banco Central. Juliana abriu o notebook e digitou o endereço que a irmã tinha mandado, valoresareceber.bcb.gov.br.

Na consulta sem login, com CPF e data de nascimento, apareceu o aviso de que havia valores a receber. Ela entrou com a conta gov.br, que já era prata por causa do imposto de renda, e viu o detalhe: R$ 380 numa conta que tinha aberto para receber salário numa escola particular e encerrado quando mudou de emprego, em 2019. Escolheu a chave Pix do CPF, pediu a devolução pelo próprio sistema e anotou o número do protocolo num caderno.

Na quarta-feira, às 7h20, esperando o ônibus perto do mercado de São Brás, o celular vibrou com um SMS.

A mensagem, reescrita pela Prudents

“Aviso: identificamos valores a receber em seu CPF. Para liberar o resgate hoje, acesse o link e regularize a taxa de liberação.” Na mesma tarde, chegou uma mensagem no WhatsApp de um perfil chamado “Central de Valores a Receber”: “Falta apenas a taxa de R$ 49,90 para concluir sua devolução. Pagamento por Pix.”

O assunto era exatamente o que ela esperava, e isso fez Juliana olhar a mensagem duas vezes. Mas ela lembrou do que tinha lido no domingo, na tela do próprio sistema: o serviço é gratuito, e o Banco Central não manda link. O pedido dela já estava feito, no site oficial, sem taxa nenhuma. Ela não clicou.

Como consultar o Valores a Receber do Banco Central?

Pelo site valoresareceber.bcb.gov.br, que o Banco Central aponta como o único endereço do serviço, inclusive para valores de pessoas que já morreram. A consulta é gratuita e pode ser feita sem login.

A página do serviço no gov.br descreve as etapas:

  1. Digite você mesmo o endereço no navegador, sem usar link recebido por mensagem.
  2. Faça a consulta sem login. Pessoa física informa CPF e data de nascimento; empresa informa CNPJ e data de abertura.
  3. Se houver valores, entre com a conta gov.br nível prata ou ouro, com a verificação em duas etapas ativada. Sem isso, o sistema não mostra o detalhe nem aceita o pedido.
  4. Escolha uma das suas chaves Pix e informe os dados pedidos.
  5. Guarde o número do protocolo. Ele serve para falar com a instituição, se for preciso.

O endereço é o que decide

O endereço verdadeiro termina em bcb.gov.br. Um site com o nome do serviço, as cores do governo e o seu nome escrito certo, mas com outro final de endereço, não é o sistema do Banco Central. Como ler um endereço antes de clicar está em como verificar se um link é seguro.

Valores de uma pessoa que morreu também aparecem na consulta, mas só herdeiros, testamentários, inventariantes ou representantes legais podem ver os dados. Nesses casos, o pedido não é feito pelo sistema: é preciso combinar com a instituição como apresentar os documentos, e não há prazo fixo para a devolução.

Quanto tempo leva para o dinheiro esquecido cair na conta?

Até 12 dias úteis, quando o pedido é feito com chave Pix, segundo a página do serviço no gov.br. A instituição pode devolver por TED para a conta ligada à chave Pix escolhida.

Dentro desse prazo, a instituição onde o dinheiro estava pode entrar em contato para confirmar a sua identidade ou tirar dúvidas sobre a forma de devolução. O gov.br explica que isso é um procedimento de segurança, mas faz um alerta: não forneça senha a ninguém.

Quem não tem chave Pix, ou não consegue selecionar uma, precisa falar com a instituição pelo telefone ou e-mail que aparece no sistema para combinar a devolução. Nesse caso, a instituição não é obrigada a cumprir os 12 dias úteis. A outra saída é criar uma chave Pix e voltar ao sistema para pedir de novo.

No caso de Juliana, o prazo começou a contar na segunda-feira, primeiro dia útil depois do pedido. A mensagem falsa chegou na quarta, enquanto ela ainda esperava o crédito, e falava justamente do assunto que ela tinha na cabeça. Saber o prazo oficial ajuda: o dinheiro cai no tempo do sistema, e nenhuma taxa adianta a liberação.

Não. O serviço é gratuito, e o Banco Central diz que não envia links nem entra em contato com ninguém para tratar de valores a receber ou para confirmar dados pessoais.

A mesma página do Banco Central explica quem pode, sim, entrar em contato: só a instituição que aparece na consulta, principalmente quando o pedido foi feito sem chave Pix. E mesmo ela nunca vai pedir dados pessoais ou senha. As orientações do Banco Central são diretas:

  • não clicar em links enviados por e-mail, SMS, WhatsApp ou Telegram;
  • não fazer nenhum pagamento para ter acesso aos valores;
  • desconfiar de quem oferece dinheiro pelo uso de cartões de crédito. O Banco Central afirma que não existe essa opção e que não há lei ou norma sobre esse tipo de devolução.

Nesse golpe, a mensagem pode pedir um Pix de taxa, dados para um suposto cadastro ou a senha do gov.br digitada numa página copiada. Qualquer um desses pedidos já mostra que não é o serviço oficial, que não cobra nada e não pede senha por mensagem.

O golpe usa o nome de um serviço público verdadeiro. Mais sobre esse formato de mensagem está em SMS falso: como funciona.

Mulher jovem num ponto de ônibus sob o sol, segurando o celular com a tela virada para ela e as sobrancelhas levemente franzidas, com a rua movimentada ao fundo
Cena ilustrativa criada com inteligência artificial: a mensagem falsa usa o nome de um serviço verdadeiro, e o site oficial não manda link nem cobra taxa.

O que fazer se você clicou no link ou pagou a taxa?

Se só recebeu a mensagem, apague e denuncie. Se clicou, digitou dados ou pagou, aja no mesmo dia.

  1. Recebeu e não clicou: denuncie a mensagem no próprio aplicativo, bloqueie o remetente e apague. É o que o WhatsApp orienta para mensagens suspeitas.
  2. Digitou a senha do gov.br ou do banco numa página aberta pelo link: troque a senha pelo aplicativo ou pelo site oficial, digitando o endereço você mesmo, e veja se a verificação em duas etapas está ativa. Se foram dados do banco, avise o banco pelo canal oficial.
  3. Pagou a taxa por Pix: conteste no aplicativo do banco pelo Mecanismo Especial de Devolução, o MED. O prazo é de até 80 dias da transferência, segundo a Agência Brasil, mas quanto antes, maior a chance de haver saldo para bloquear.
  4. Registre o boletim de ocorrência numa delegacia ou pela delegacia virtual do gov.br, nos estados que aderiram, com os prints da mensagem e o comprovante.
  5. Volte ao site oficial e veja se o seu pedido de devolução continua normal. O golpe não tem acesso ao sistema do Banco Central.

Existem outros golpes que prometem devolver dinheiro em troca de uma taxa, com o nome de órgãos e bancos. Eles estão reunidos em golpe do falso reembolso.

O que aconteceu com o dinheiro de Juliana

No ponto de ônibus, Juliana tirou um print do SMS e, à tarde, fez o mesmo com a mensagem do WhatsApp. Denunciou e bloqueou os dois contatos e mandou os prints no grupo da família, com um aviso curto: o site é o do Banco Central e ninguém cobra taxa.

A mãe dela respondeu dizendo que tinha recebido um SMS parecido na semana anterior e quase tinha clicado. Juliana fez a consulta com ela pelo site oficial. Não havia nada em nome da mãe, o que confirmava que a mensagem dela também era falsa.

Os R$ 380 caíram na conta de Juliana na sexta-feira da semana seguinte, nove dias úteis depois do pedido, por TED do banco antigo. O golpista não levou nada, e o pedido feito no site oficial seguiu normal, do jeito que o gov.br descreve.

Fontes consultadas

A história de Juliana é um exemplo criado pela Prudents, com nomes e detalhes inventados. O golpe é real, e as regras e os caminhos descritos aqui têm fonte, listada abaixo.

Consulta feita em 28/09/2026.

Perguntas frequentes

O Valores a Receber cobra alguma taxa?

Não. O Banco Central informa que todos os serviços do Valores a Receber são gratuitos e orienta a não fazer nenhum pagamento para ter acesso aos valores. Mensagem que pede taxa de liberação é golpe.

O Banco Central manda SMS ou WhatsApp avisando de valores a receber?

Não. O Banco Central diz que não envia links nem entra em contato com ninguém para tratar de valores a receber. Só a instituição que aparece na consulta pode entrar em contato, e ela nunca pede senha.

Preciso de conta gov.br para consultar valores a receber?

Para saber se existe algum valor, não: a consulta sem login usa CPF e data de nascimento. Para ver o detalhe e pedir a devolução, é preciso conta gov.br nível prata ou ouro com verificação em duas etapas ativada.

Em quanto tempo o dinheiro esquecido cai na conta?

Até 12 dias úteis quando o pedido é feito com chave Pix, segundo o gov.br. Sem chave Pix, é preciso combinar a devolução com a instituição, que não fica presa a esse prazo.

Como resgatar valores a receber de um parente que morreu?

A consulta é feita no mesmo site, na área de pessoa falecida, e só herdeiros, testamentários, inventariantes ou representantes legais podem acessar os dados. O pedido não é feito pelo sistema: a família combina com a instituição como apresentar os documentos.

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