
O terceiro dia da Vanessa em Roma
Vanessa tem 35 anos e é nutricionista em Curitiba. Juntou dinheiro por dois anos para a primeira viagem à Europa, com a amiga Juliana: Roma, Florença e Lisboa em dezoito dias. Um mês antes do embarque, contratou um seguro viagem pela internet, com cobertura de despesas médicas de 30 mil euros, porque tinha lido que esse era o valor pedido para o espaço Schengen.
No terceiro dia, as duas saíram cedo para ver a cidade antes do calor. Numa escadaria de pedra perto do hotel, ainda molhada da lavagem da rua, Vanessa pisou em falso, sentiu o tornozelo estalar e sentou no degrau. Em poucos minutos o pé estava inchado e roxo, e ela não conseguia apoiar o peso.
Juliana quis chamar um táxi para o hospital mais próximo. Vanessa lembrou de uma frase que tinha lido no e-mail da apólice: em caso de atendimento, ligue antes para a central. Abriu o PDF no celular, achou o número de assistência e ligou dali mesmo, sentada na escada.
A atendente, em português, pediu o nome, o número da apólice, o endereço onde elas estavam e o que tinha acontecido. Vinte minutos depois, mandou por mensagem o nome de um hospital particular da rede do seguro e o aviso de que o hospital já estava informado do caso.
No hospital, o raio-x mostrou a fratura. Veio a cirurgia, dois dias de internação, a bota ortopédica e as muletas. Na alta, a recepção entregou o resumo da conta: 11 mil euros, mais do que Vanessa tinha gastado com a viagem inteira. Foi ali que ela descobriu quanto o seguro cobria e quem ia pagar.
Brasileiro precisa de seguro viagem de 30 mil euros para ir à Europa?
O valor de 30 mil euros vem da regra de vistos do espaço Schengen, e o brasileiro não precisa de visto para turismo curto. Mesmo assim, o seguro pode ser pedido na fronteira, e os 30 mil euros acabaram virando a referência mínima para quem viaja.
O Código de Vistos da União Europeia, no artigo 15, exige que quem pede visto de curta duração tenha seguro médico de viagem válido em todos os países do espaço Schengen, durante toda a estada, com cobertura mínima de 30 mil euros para atendimento urgente, internação, repatriação por razão médica e morte.
Os brasileiros não passam por esse pedido de visto. A Embaixada da Itália em Brasília informa que brasileiros são isentos de visto para ficar até 90 dias a cada 180 por turismo, negócios e outros motivos. A mesma página diz que, na chegada, as autoridades de fronteira podem pedir documentos que comprovem a viagem, entre eles a validade de um seguro de saúde.
Na prática
Leve a apólice impressa ou salva no celular, com cobertura médica válida em todos os países do roteiro e durante todos os dias da viagem. Os 30 mil euros são o piso da regra de vistos e não garantem que qualquer conta vai caber.
Existe ainda o ETIAS, uma autorização de viagem que os europeus vão exigir de quem é isento de visto. Segundo o site oficial do ETIAS, consultado em 28/09/2026, ele ainda não está funcionando, não aceita pedidos, vai custar 20 euros e terá a data de início anunciada meses antes. Até lá, nada muda para o brasileiro que embarca agora.
Por que ligar para a central do seguro antes de ir ao hospital?
Porque é a central que encaminha você para um hospital da rede do seguro, onde a conta pode ser paga direto pela seguradora. Sem esse contato, o mais comum é você pagar e pedir reembolso depois, dentro do que as condições da apólice permitirem.
A Circular Susep 667/2022, que traz as regras do seguro viagem, prevê as duas formas: atendimento pela rede referenciada ou reembolso. Ela também obriga a apólice a dizer o que acontece quando não é possível falar com a seguradora ou usar a rede, e garante que, em emergência ou urgência, a pessoa possa ser reembolsada pelo atendimento fora da rede até estar estável para ser transferida.
- Antes de viajar, salve no celular a apólice e o número da central, e deixe uma cópia com quem viaja com você.
- Se precisar de atendimento, ligue antes, quando der. Informe nome, número da apólice, onde você está e o que aconteceu.
- Anote o número do atendimento e o nome do hospital indicado, e peça a confirmação por mensagem ou e-mail.
- Em emergência, busque atendimento primeiro. Vá ao atendimento mais próximo e avise a central assim que possível, guardando laudos, recibos e a conta detalhada.
No caso da Vanessa, a ligação feita na escada fez o hospital receber o caso já autorizado. Ela assinou os papéis da internação sem precisar deixar cartão de crédito como garantia.

O que o seguro viagem pode deixar de fora?
Fica de fora o que estiver nos riscos excluídos da apólice e tudo o que passar do limite contratado. As regras da Susep dizem como essas exclusões podem ser escritas e proíbem algumas.
O limite de cada cobertura
A cobertura de despesas médicas paga até o valor contratado. Com 30 mil euros, a conta de 11 mil da Vanessa coube com folga. Uma cirurgia mais complexa ou uma internação longa poderia não caber, e o que passasse do limite ficaria com ela.
Doença preexistente
A Circular Susep 667 diz que a apólice precisa tratar de doença preexistente nas condições contratuais. Doença que a pessoa não conhecia ao contratar, ou que declarou na declaração de saúde, não pode ser excluída, salvo acordo expresso para doenças específicas declaradas. E, em viagem internacional, a cobertura médica precisa pagar a estabilização de uma crise de doença preexistente ou crônica que vire emergência ou urgência, até o limite contratado.
Bebida alcoólica
A mesma circular proíbe excluir da cobertura eventos causados por atos do segurado em estado de embriaguez. Se uma apólice trouxer essa exclusão, ela vai contra a norma.
Esportes e atividades de risco
Esqui, mergulho e esportes de aventura podem aparecer como risco excluído ou depender de cobertura adicional, conforme a apólice. A circular exige que as exclusões sejam descritas de forma precisa, sem frases genéricas, então vale ler essa parte antes de pagar.
A Susep lembra que, em viagem internacional, o seguro precisa oferecer no mínimo a cobertura de despesas médicas, e que ela não pode cobrir só acidentes. Antes de contratar, dá para ver se a seguradora é autorizada na consulta de empresas da Susep.
O que fazer se a seguradora negar ou demorar para pagar?
Peça a negativa por escrito, com os motivos e os documentos que a fundamentaram, e registre uma reclamação. A Lei 15.040/2024, a lei dos contratos de seguro em vigor desde dezembro de 2025, dá prazo e obriga a seguradora a mostrar por que negou.
- Prazo para responder: a seguradora tem até 30 dias para se manifestar sobre a cobertura, contados da entrega de todos os documentos necessários. Se não responder nesse prazo, perde o direito de recusar (artigo 86).
- Documentos da negativa: se negar a cobertura, no todo ou em parte, precisa entregar os documentos que fundamentam a decisão (artigo 83).
- Reclamação: as reclamações contra seguradoras são registradas no Consumidor.gov.br, como explica a Susep. A empresa tem até 10 dias para responder.
Guarde a conta detalhada, laudos, exames, recibos de farmácia e táxi, o número do atendimento com a central e as mensagens trocadas. Esses papéis são o que sustenta um pedido de reembolso ou uma reclamação depois.
Como terminou a viagem da Vanessa
O seguro pagou os 11 mil euros direto ao hospital. Vanessa não precisou adiantar nada da cirurgia nem da internação, e o limite de 30 mil euros continuou valendo, com o que sobrou, para o resto da viagem.
Nem tudo foi resolvido ali. A bota e as muletas foram compradas numa farmácia perto do hospital, e ela pagou do próprio bolso para pedir reembolso depois, com as notas fiscais. As diárias extras de hotel em Roma e a troca da passagem dependem de outras coberturas da apólice, e ela ainda está conferindo, com a central, o que o plano dela inclui.
Ela desistiu de Florença e passou menos dias em Lisboa, andando de muletas.
Fontes consultadas
A história de Vanessa é um exemplo criado pela Prudents, com nomes e detalhes inventados. A situação é real, e as regras e os caminhos descritos aqui têm fonte, listada abaixo.
Consulta feita em 28/09/2026.
- Regulamento (CE) 810/2009, Código de Vistos da União Europeia, artigo 15: seguro médico de viagem de no mínimo 30 mil euros para quem pede visto Schengen.
- Embaixada da Itália em Brasília: isenção de visto para brasileiros até 90 dias a cada 180 e possibilidade de a fronteira pedir comprovação de seguro de saúde.
- Site oficial do ETIAS: sistema ainda sem funcionamento, taxa de 20 euros e anúncio da data meses antes.
- Circular Susep 667/2022: rede referenciada e reembolso, contato impossível com a seguradora, doença preexistente, proibição de excluir eventos em estado de embriaguez e descrição precisa das exclusões.
- Susep, página do seguro viagem: cobertura médica mínima em viagem internacional.
- Lei 15.040/2024, artigos 83 e 86: documentos da negativa e prazo de 30 dias.
- Susep, como reclamar: reclamações pelo Consumidor.gov.br e prazo de 10 dias da empresa.
Perguntas frequentes
Seguro viagem é obrigatório para ir à Europa?
Para quem precisa de visto Schengen, o seguro de no mínimo 30 mil euros é exigido pelo Código de Vistos da União Europeia. O brasileiro é isento de visto para turismo de até 90 dias, mas a fronteira pode pedir comprovação de seguro de saúde, segundo a Embaixada da Itália. Por isso, viajar com a apólice é o caminho seguro.
30 mil euros de cobertura são suficientes?
Esse é o piso da regra de vistos. Uma fratura com cirurgia e dois dias de internação, como no exemplo desta página, cabe nesse limite, mas uma internação longa pode passar dele. Tudo o que passar do valor contratado fica com o viajante.
Preciso ligar para a seguradora antes de ir ao hospital?
Sempre que der, sim. A central indica um hospital da rede e, nesses casos, a conta pode ser paga direto pela seguradora. Em emergência, busque o atendimento mais próximo primeiro e avise a central assim que possível.
O seguro viagem pode negar atendimento porque eu tinha bebido?
A Circular Susep 667/2022 proíbe excluir da cobertura eventos causados por atos do segurado em estado de embriaguez. Se receber uma negativa com esse motivo, peça a justificativa por escrito e registre reclamação no Consumidor.gov.br.
O ETIAS substitui o seguro viagem?
Não. O ETIAS é uma autorização de viagem, não um seguro, e segundo o site oficial ainda não está funcionando. Quando começar, ele será exigido de quem é isento de visto, e a data vai ser anunciada meses antes.
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