
A mulher no portão
Três semanas depois da morte do seu Aristeu, a filha dele, Vânia, revirou a escrivaninha do pai procurando o contrato da casa onde a mãe, dona Celina, mora há mais de vinte e cinco anos. O contrato não estava na pasta azul onde sempre ficou. O irmão mais velho, Márcio, disse que nem tinha entrado naquele quarto, e pouco depois ela ouviu ele falar baixinho ao telefone com um tal de seu Valter sobre uma “garantia”. Embaixo da última gaveta, presa com fita adesiva, a Vânia achou outra coisa: um envelope com um maço de comprovantes de depósito, um por mês, e uma foto antiga do pai com uma menina de uns 8 anos no colo, na frente do portão verde da casa. A mãe viu a foto, disse “Guarda isso, Vânia” e saiu do quarto sem responder. No fim da tarde, a campainha tocou, e no portão uma mulher com um envelope na mão disse que se chamava Rosângela e que eles precisavam conversar sobre aquela casa.
A Rosângela entrou e sentou na beirada do sofá de couro da sala, com o envelope no colo. O Márcio ficou de pé no meio da sala, de braços cruzados, e a Vânia ficou perto da estante, com a foto ainda no bolso.
“Conversar o quê, moça? Essa casa é da minha família faz mais de vinte e cinco anos”, disse o Márcio.
A Rosângela tirou do envelope uma folha só, uma certidão do cartório, e estendeu para ele. “No cartório, ela ainda tá no nome do meu pai. Nestor Alves.”
O Márcio olhou o papel por dois segundos e devolveu com força. “Meu pai comprou essa casa e pagou até o último centavo!”
“Então me mostra o papel”, ela respondeu, sem levantar a voz.
A sala ficou em silêncio. A Vânia virou a cabeça devagar e olhou para o irmão. “Mostra, Márcio.”
“Por que você tá olhando pra mim?”
Foi nessa hora que a porta da sala abriu. O Juninho, o caçula, que mora em São Paulo e tinha vindo de ônibus, entrou puxando uma mala de rodinha, de mochila nas costas e sorrindo. “Ninguém ia me buscar na rodoviária, não?” Ele parou quando viu a cara de todo mundo. “Opa… Quem é?”
“Juninho, essa é a Rosângela. Ela diz que a casa é do pai dela.”
“Do pai dela como?”
A Rosângela se levantou e guardou a certidão no envelope, sem pressa. “Eu não vim brigar com ninguém. Eu vim porque prometi pra minha mãe.”
A Vânia tirou a foto do bolso e mostrou para ela. “Essa menina na foto é você?” Os olhos da Rosângela encheram d’água, mas a voz saiu firme: “Pergunta pra sua mãe quem eu sou.”
Ela atravessou a varanda de piso vermelho e saiu pelo portão. O Juninho foi atrás. “Moça, espera. Deixa pelo menos um telefone.” Ela tirou um cartão da bolsa, entregou para ele e foi embora sem olhar para trás.
No quarto, a dona Celina tinha ouvido tudo. Sentou na cama, abriu uma lata de biscoito antiga, cheia de cartas e papéis dobrados, tirou de lá uma folha e apertou contra o peito. “Você me prometeu, Aristeu”, disse baixinho, para ninguém. “Que ninguém dessa família ia bater nessa porta.”
À noite, os três irmãos sentaram em volta da mesa da cozinha com os comprovantes espalhados na toalha xadrez. O Márcio não conseguia ficar sentado. “Tá na cara. O pai tinha outra família e mandava dinheiro pra ela todo mês.”
“Fala baixo. A mãe tá acordada”, pediu o Juninho.
A Vânia empurrou os comprovantes para o lado e olhou para o irmão mais velho. “E o contrato sumiu justo agora. Que coincidência, né, Márcio?”
“Eu não peguei nada!”
Ele saiu pela porta dos fundos. Na garagem, com só a lâmpada do teto acesa, abriu a porta do carro prata, abriu o porta-luvas e tirou de lá uma pasta azul. Ficou um bom tempo parado, olhando para ela.
Vinte e dois anos de depósitos
Na manhã seguinte, a Vânia e o Juninho separaram os comprovantes em montinhos na mesa da cozinha, um para cada ano. A Vânia, que é professora, anotava tudo num caderno, do mesmo jeito que corrige prova.
“Dois mil e quatro até agora. Todo mês, sem pular nenhum.”
“Vinte e dois anos, Vânia.” O Juninho pegou o comprovante de cima do último montinho e olhou de perto. “O último é do mês passado. O pai foi no banco e não falou nada pra ninguém.”
A Vânia parou a caneta e fez a conta de cabeça antes de falar. “Se isso fosse parcela de casa, essa casa tava paga três vezes.”
“Então não era a casa.”
O Juninho tirou do bolso da jaqueta o cartão que a Rosângela tinha deixado e pegou o celular. “Vou ligar pra ela.”
“E vai falar o quê?”
“Que a gente quer entender.”
Ele ligou, esperou e abaixou o celular. “Caixa postal.”
“Liga de novo.”
“Já é a terceira vez, Vânia. Ela não quer falar com a gente.”
Lá fora, alguém bateu palmas no portão. A dona Celina foi atender. Do outro lado do portão verde estava um homem de uns sessenta anos, queimado de sol, de bigode grisalho, óculos de armação marrom e camisa polo amarela.
“Bom dia. A senhora é a mãe do Márcio? Ele não me atende faz uma semana.”
“Sou. Quem é o senhor?”
“Valter. Eu vendo peça pra oficina dele faz quinze anos.” Ele ficou sem graça. “Desculpa vir assim, na casa da senhora… Mas eu também tenho conta pra pagar.”
Da janela da cozinha, a Vânia viu a mãe segurar no portão e fez sinal para o Juninho ficar quieto.
“O Márcio tá devendo pro senhor?”, perguntou a dona Celina.
“Faz um ano que ele só me paga com promessa.”
Ela falou mais baixo, que é como ela fala quando está brava. “Quanto meu filho deve, seu Valter?”
O seu Valter olhou para o chão antes de responder. “Quarenta e oito mil, dona.”
Na cozinha, a Vânia levou a mão à boca.
“Mas semana passada ele me disse que agora tinha como garantir.”
“Garantir com o quê?”
O seu Valter olhou para ela e depois para a casa atrás dela, a varanda, a porta da sala aberta. Falou devagar, com pena de dizer: “O Márcio disse que a casa da senhora ia garantir a dívida dele.”
A dona Celina não respondeu. Apertou o terço que usa no pulso e ficou olhando para ele.
O Márcio e a pasta azul
O Márcio só chegou de noite. Entrou pela porta dos fundos com a chave do carro na mão e parou. A mãe estava sentada à mesa da cozinha, e a Vânia e o Juninho estavam em pé atrás dela.
“Quarenta e oito mil, Márcio”, disse a dona Celina. “E a garantia era a minha casa?”
“Quem te falou isso, mãe?”
“O seu Valter”, respondeu a Vânia. “Aqui no portão, hoje de manhã.”
O Márcio largou a chave na mesa e passou a mão no rosto. “Eu ia resolver antes de vocês ficarem sabendo.”
“Resolver com a casa da mãe?”, perguntou o Juninho. Dessa vez ele não fez piada.
A dona Celina apontou a cadeira na frente dela. “Senta. Agora você vai me contar tudo, desde o começo.”
Ele sentou, de olhos baixos, com as mãos em cima da toalha xadrez. “A oficina tá afundando faz dois anos, mãe. Fui pegando peça fiado com o seu Valter. Quando vi, já era uma dívida que eu não ia pagar nunca.” Respirou fundo. “Depois do enterro do pai, eu peguei a pasta do contrato na escrivaninha dele.”
A Vânia deu um passo à frente, brava e com os olhos molhados. “Eu virei aquele quarto de cabeça pra baixo procurando esse papel, Márcio!”
“Eu sei.”
Ele voltou a olhar para a mãe. “Eu ia passar a casa pro nome da senhora no cartório e dar de garantia num empréstimo. Depois eu pedia pra senhora assinar.”
“Depois”, repetiu a dona Celina, baixinho.
“Eu tinha vergonha, mãe.” A voz dele falhou. “Vergonha de ver a oficina fechar.”
Ele se levantou e foi até a garagem. O Juninho foi atrás e ficou parado na porta, vendo o irmão abrir o porta-luvas do carro prata e tirar a pasta azul. De volta à cozinha, o Márcio pôs a pasta na mesa, na frente da mãe, e ela pôs a mão em cima.
“Tá tudo aí.”
“E por que você não levou isso no cartório?”, perguntou o Juninho.
“Eu levei.” O Márcio olhou para a mãe. “No cartório disseram que falta a última página.”
A dona Celina desviou o olhar e apertou o terço no pulso. A Vânia viu e não disse nada.
A lata em cima do guarda-roupa
Naquela noite a Vânia não conseguiu dormir. Quando a mãe foi tomar banho, ela entrou no quarto dela, abriu o guarda-roupa de madeira escura e ficou na ponta dos pés para alcançar a parte de cima. “O que é que a mãe guarda aqui em cima, escondido?”, disse para si mesma.
Atrás de uma pilha de cobertores havia uma lata de biscoito redonda, antiga e amassada. Ela sentou na beira da cama e abriu a lata no colo. Dentro havia cartas antigas e uma folha amarelada, dobrada em quatro, com os furos de grampo no canto, do mesmo papel do contrato que estava na pasta azul. Ela desdobrou a folha devagar e leu em voz alta a letra do pai, cada vez mais baixo:
“Depois de quitada a casa, continuo ajudando a Iolanda enquanto ela precisar. Aristeu.”
A Vânia voltou para a cozinha com a folha na mão. O Juninho estava sentado à mesa, mexendo no celular. “Juninho. A última página do contrato. Tava com a mãe.”
“Com a mãe?” Ele pegou a folha, leu em silêncio e levantou os olhos. “Iolanda? Quem é Iolanda?”
A dona Celina apareceu na porta da cozinha, de cabelo molhado, e viu a folha em cima da mesa. Segurou no batente. “Onde vocês acharam isso?” Falou baixo e devagar, sem raiva.
“Na lata, mãe”, respondeu a Vânia, com a voz tremendo. “Em cima do seu guarda-roupa.”
A dona Celina sentou devagar numa cadeira, olhando para as próprias mãos.
“A senhora sabia”, disse a Vânia. “Esse tempo todo, a senhora sabia.”
A mãe não respondeu. A Vânia esperou um pouco e perguntou de novo, mais devagar: “Mãe… quem é Iolanda?”
A dona Celina levantou os olhos. “A mulher que o seu pai amou antes de mim.”
A senhora da poltrona
Antes de ir deitar, a dona Celina disse mais uma coisa só, já de costas, no corredor: “Achei em 2006. Guardei pra não ter que perguntar.”
No dia seguinte, a Vânia atravessou a rua e perguntou à vizinha da frente, que mora ali desde antes de a família chegar, se ela lembrava de um Nestor Alves. Lembrava. Ele tinha sido o dono da casa antes do seu Aristeu, tinha morrido fazia mais de vinte anos, e a viúva dele ainda morava do outro lado da cidade, com a filha, que trabalhava na enfermagem.
No fim da tarde, a Vânia e o Juninho pararam na frente de um portão baixo pintado de branco, num muro com plantas em latas. A Rosângela abriu a porta da casa, viu os dois e veio até o portão já fechando.
A Vânia ergueu o maço de comprovantes. Foi o Juninho quem perdeu a paciência primeiro: “Vinte e dois anos o meu pai depositou dinheiro pra essa casa! E a senhora fecha o portão na nossa cara?”
Ele respirou e abriu as mãos. “A gente só quer entender. Por favor.”
“Fala baixo”, respondeu a Rosângela, cansada. “Minha mãe tá doente.”
De dentro da casa veio uma voz firme: “Rosângela… Deixa os filhos do Aristeu entrar.”
A sala era pequena e limpa. Tinha uma máquina de costura coberta com um pano e, perto da janela, uma poltrona antiga onde estava sentada uma senhora muito magra, de cabelo branco bem curto, com uma manta de crochê colorida no colo. A Vânia sentou num banquinho na frente dela, e o Juninho ficou em pé, perto da máquina de costura.
“A senhora conhecia o meu pai?”, perguntou a Vânia.
A dona Iolanda deu um meio sorriso. “Conheci antes da sua mãe, minha filha.”
Ela contou devagar, olhando para a janela de vez em quando. “Em 99, o Aristeu comprou aquela casa do meu marido, o Nestor. No papel, de mão em mão.” Os dois eram amigos desde moços. O seu Aristeu não tinha o dinheiro todo, e o Nestor aceitou receber em parcelas, direto, sem banco e sem cartório. “O Nestor dizia que a palavra do Aristeu bastava.”
“Então os depósitos eram a casa?”, perguntou o Juninho.
“Até 2006, eram. Depois disso, não.”
O Nestor ficou doente em 2003 e, antes de morrer, chamou o amigo. “O Nestor, antes de morrer, fez o Aristeu prometer que não ia me deixar faltar nada.” A dona Iolanda passou a mão na manta. O seu Aristeu terminou de pagar a casa para ela em 2006 e, no mês seguinte, o depósito apareceu de novo na conta dela, e no outro também. “E cumpriu. Até o mês em que ele morreu.”
A Vânia levou a mão à boca. A Rosângela, encostada no batente da porta da sala, de braços cruzados, falou baixo, sem raiva: “A menina da foto sou eu. Ele era meu padrinho.”
“A escritura eu assinei em 2006, no nome da Celina”, continuou a dona Iolanda. “O Aristeu nunca levou no cartório.” Ele dizia que ia buscar no mês seguinte, e depois no outro. O dinheiro do registro nunca sobrava, e com o tempo ele foi deixando.
O Juninho passou a mão no cabelo e olhou para a irmã. “Vânia… existe uma escritura no nome da mãe.”
A dona Iolanda segurou a manta com as duas mãos e falou firme, devagar: “Traz a Celina aqui. Tem uma coisa que ela precisa ouvir de mim.”

Dona Celina e dona Iolanda, sozinhas na sala
A dona Celina levou dois dias para aceitar. No sábado de manhã, pôs o vestido azul-marinho, prendeu o cabelo no coque baixo e pediu para a Vânia levar ela. Não falou nada no caminho.
Dessa vez foi a Rosângela que abriu o portão. Cumprimentou a dona Celina com a cabeça e levou ela até a sala. A dona Iolanda pediu: “Deixa a gente sozinha, Rosângela.” A porta da sala ficou encostada.
Na varanda, a Vânia e a Rosângela sentaram lado a lado, sem saber o que dizer. A Rosângela falou primeiro. “Desculpa o jeito que eu cheguei na sua casa. Eu tava cansada, e com raiva de ter que ir.”
“Por que agora?”
“A mãe piorou. Ela me pediu pra entregar a escritura pra família do Aristeu enquanto ela ainda tá aqui. Fui no cartório pedir a certidão pra saber como a casa estava e vi que continuava no nome do meu pai.” Ela olhou para a rua. “Eu não quero a casa, Vânia. Nunca quis.”
Lá dentro, as duas senhoras ficaram um tempo caladas. A dona Iolanda falou primeiro.
“Você ainda tem raiva de mim, Celina?”
“Eu tive ciúme de você a vida inteira”, respondeu a dona Celina. “No começo do casamento, eu soube que você tinha sido namorada dele. Briguei, chorei e fiz ele prometer que ninguém da sua família ia bater na minha porta. Ele prometeu.” Ela apertou o terço no pulso. “Em 2006 eu achei aquele bilhete no contrato e pensei que ele tinha mentido pra mim esse tempo todo.”
“E nunca perguntou.”
“Nunca. Se eu perguntasse, ele ia ter que responder.”
A dona Iolanda balançou a cabeça devagar. “Ninguém da minha família bateu na sua porta, Celina. Era ele que ia no banco todo mês e, quando eu precisava de remédio, mandava um pouco mais. Nunca entrou nesta casa sem a Rosângela estar junto e só falava de você e dos meninos.” Ela sorriu de leve. “Ele cumpriu a promessa que fez pra você e a que fez pro Nestor. Só não teve coragem de contar uma pra outra.”
A dona Celina tirou os óculos e passou a mão nos olhos. Ficou um tempo assim. Depois, sem que nenhuma das duas soubesse direito como, estavam rindo de uma lembrança dos bailes da cidade, do tempo em que o Aristeu era um rapaz magro que não sabia dançar.
“Abre a gaveta da máquina de costura”, pediu a dona Iolanda. “Tem um envelope pardo lá. Ele nunca veio buscar, e eu guardei esses anos todos.”
A dona Celina abriu o envelope. Era a escritura da casa do portão verde, de 2006, com a assinatura da dona Iolanda e o carimbo do tabelionato. Ela passou o dedo pela folha até a parte que dizia quem estava comprando a casa e leu o nome que estava ali.
Era o dela.
O almoço de domingo
No domingo, a mesa da cozinha não dava para todo mundo, e o almoço foi na sala. O Márcio buscou a dona Iolanda e a Rosângela no carro prata e ajudou a senhora a sentar no sofá de couro, com a manta de crochê no colo. A dona Celina fez frango com quiabo, o Juninho pôs a mesa e a Vânia trouxe a pasta azul, com a última página de volta no lugar, e o envelope da escritura.
Antes de servir, o Márcio pediu para falar. Ficou de pé, com o pano vermelho no bolso de trás da calça. “Eu peguei uma coisa que não era minha e menti pra vocês. Pra senhora, mãe. Pra Vânia, que procurou esse papel pela casa inteira. E pra Rosângela, que eu tratei mal no dia em que ela entrou aqui. Me desculpa.”
Ele contou que tinha ido na sexta à loja do seu Valter, falado a verdade e combinado de pagar a dívida em parcelas, com a venda de um elevador de carro da oficina como entrada. “Ele aceitou. Disse que só queria ser tratado direito.”
A dona Celina esperou ele sentar. Depois falou, baixo e devagar, e todo mundo ficou quieto para ouvir.
“Amanhã eu vou no cartório de registro de imóveis com essa escritura. A casa vai pro meu nome, que é onde o Aristeu queria que ela estivesse. E ela não vai ser garantia de dívida de ninguém.” Ela olhou para o Márcio. “A dívida do seu Valter a gente resolve junto, sem a casa.”
Depois olhou para a dona Iolanda. “E todo começo de mês eu vou no banco.”
“Celina, não precisa”, disse a dona Iolanda.
“O bilhete diz enquanto você precisar. Você ainda precisa.”
A Rosângela abaixou a cabeça. A Vânia segurou a mão da mãe por baixo da mesa. Foi a dona Iolanda quem acabou com o silêncio: “Agora alguém me serve esse frango, que eu não vim aqui pra chorar.” Todo mundo riu, até o Márcio.
O almoço foi até o meio da tarde. Na hora do café, o celular do Juninho tocou. Ele olhou o número, levantou e foi atender na varanda. A Vânia, que levava as xícaras para a cozinha, passou perto da porta e ouviu uma voz de homem do outro lado da linha, alta o bastante para sair do telefone:
“Júnior, você disse que o dinheiro do seu pai ia sair essa semana.”
O Juninho olhou para dentro da casa, para a mesa cheia, e não respondeu.
Contrato de gaveta garante a casa?
Contrato de gaveta não garante a casa: ele prova que houve uma compra, mas não faz de quem comprou o dono do imóvel. Pelo Código Civil, no artigo 1.245, a propriedade de um imóvel só passa de uma pessoa para outra com o registro do título no Registro de Imóveis, e, enquanto esse registro não acontece, quem vendeu continua sendo considerado o dono. O ditado “quem não registra não é dono” vem daí.
“Contrato de gaveta” é o nome popular do contrato particular de compra e venda que comprador e vendedor assinam e guardam em casa, sem passar pelo cartório. Para imóvel, o artigo 108 do mesmo Código ainda exige escritura pública, feita no tabelionato de notas, quando o valor passa de trinta vezes o maior salário mínimo do país.
O contrato particular continua tendo valor: ele mostra o que foi combinado e o que foi pago, e é a base para pedir a transferência quando o vendedor não pode ou não quer assinar a escritura. Se a promessa de compra e venda for registrada no cartório de imóveis, o comprador ganha um direito mais forte, que o artigo 1.417 chama de direito real à aquisição.
O contrato do seu Aristeu nunca foi registrado. Por isso, 27 anos depois da compra, a certidão da Rosângela ainda mostrava a casa no nome do Nestor Alves.
E a casa como garantia?
O artigo 1.420 do Código Civil diz que só quem pode vender um bem pode dar esse bem em hipoteca. Por isso o plano do Márcio dependia de passar a casa para o nome da mãe e, depois, da assinatura dela.
Escritura sem registro vale alguma coisa?
A escritura sem registro vale como prova da venda e é o documento que se leva ao cartório, mas sozinha ela não faz de ninguém o dono do imóvel. A escritura é assinada no tabelionato de notas. O registro é feito depois, no cartório de registro de imóveis da cidade onde fica a casa, e é ele que põe o nome do novo dono na matrícula, a ficha do imóvel. A Lei 6.015/1973 diz que esse registro é obrigatório (artigos 167 e 169). Foi o passo que faltou para a escritura de 2006 da dona Celina, que ficou vinte anos numa gaveta.
- Peça a certidão da matrícula no cartório de registro de imóveis da cidade ou pelo site do Registro de Imóveis do Brasil. Qualquer pessoa pode pedir, sem explicar o motivo (artigo 17 da Lei 6.015). Foi o que a Rosângela fez.
- Leve a escritura original ao mesmo cartório e peça o protocolo. Pelo artigo 1.246 do Código Civil, o registro vale a partir desse momento.
- Espere a análise. O cartório tem 10 dias, contados do protocolo, para registrar ou devolver o pedido com uma nota (artigo 188 da Lei 6.015).
- Se faltar algum documento, a exigência vem por escrito, de uma vez só (artigo 198). Junte o que foi pedido e volte.
Registro tem custo
O cartório cobra uma taxa pelo registro, chamada emolumento. Dá para ter uma ideia do valor na calculadora do Registro de Imóveis do Brasil. Foi esse dinheiro que o seu Aristeu foi deixando para depois.
Comprei com contrato de gaveta e quem vendeu morreu: como passar a casa para o meu nome?
Quando a casa foi paga com contrato de gaveta e quem vendeu morreu, a lei oferece pelo menos dois caminhos para passar o imóvel para o nome do comprador: a adjudicação compulsória e a usucapião. Os dois podem ser pedidos no próprio cartório de registro de imóveis, e os dois exigem advogado ou defensor público.
Adjudicação compulsória é o pedido para o imóvel ser transferido para quem pagou, quando o vendedor não assina a escritura. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, que regulamentou o pedido em cartório em 2023, ela vale quando o vendedor se recusa a cumprir um contrato quitado, quando morreu ou quando não é encontrado. O pedido em cartório está no artigo 216-B da Lei 6.015 e precisa, entre outros papéis, de prova de que o preço foi pago e do comprovante do ITBI, o imposto da prefeitura sobre a transferência. Pela Justiça, o caminho continua aberto.
Usucapião é virar dono por morar no imóvel como dono por muito tempo, sem ninguém se opor. O Código Civil prevê, por exemplo, 10 anos para quem tem documento da compra e agiu de boa-fé (artigo 1.242) e 5 anos para área urbana de até 250 metros quadrados usada como moradia por quem não tem outro imóvel (artigo 1.240). O pedido em cartório está no artigo 216-A da Lei 6.015.
Antes de comprar, ou de aceitar uma casa como garantia
Peça a certidão atualizada da matrícula e veja em nome de quem o imóvel está registrado.
Para a família do seu Aristeu, a escritura de 2006 muda a ordem: primeiro se tenta o registro. Os outros caminhos só entram se ele não for possível, com a orientação de um advogado ou da Defensoria Pública do estado.
Fontes consultadas
A história do seu Aristeu e da família dele é uma novela criada pela Prudents, com nomes e detalhes inventados. A situação da casa comprada sem registro é real, e as regras e os caminhos descritos aqui têm fonte, listada abaixo.
Consulta feita em 19/10/2026.
- Código Civil, Lei 10.406/2002: artigo 108 (escritura pública para imóvel acima de trinta salários mínimos), artigos 1.240 e 1.242 (prazos de usucapião), artigos 1.245 e 1.246 (a propriedade só passa com o registro, e o registro vale desde o protocolo), artigos 1.417 e 1.418 (promessa de compra e venda registrada e adjudicação) e artigo 1.420 (só quem pode vender pode hipotecar).
- Lei de Registros Públicos, Lei 6.015/1973: artigo 17 (qualquer pessoa pode pedir certidão), artigos 167 e 169 (compra e venda é registrada, no cartório do lugar do imóvel), artigos 188 e 198 (prazo de 10 dias e exigência por escrito), artigo 216-A (usucapião em cartório) e artigo 216-B (adjudicação compulsória em cartório).
- Conselho Nacional de Justiça, 15/09/2023: regras da adjudicação compulsória em cartório (Provimento 150/2023) e os casos em que ela se aplica, inclusive a morte do vendedor.
- Registro de Imóveis do Brasil: pedido de certidão de matrícula pela internet e calculadora de emolumentos.
Perguntas frequentes
O que é contrato de gaveta?
É o nome popular do contrato particular de compra e venda de imóvel que comprador e vendedor assinam e guardam, sem fazer escritura nem registro no cartório. Ele prova o negócio, mas não transfere a propriedade, porque pelo artigo 1.245 do Código Civil o imóvel só muda de dono com o registro.
Quem não registra não é dono?
Pela lei, não. O artigo 1.245 do Código Civil diz que, enquanto o título não é registrado no Registro de Imóveis, quem vendeu continua sendo considerado o dono. Por isso uma casa paga há anos pode continuar no nome do antigo proprietário.
Escritura antiga, nunca registrada, ainda pode ser registrada?
O caminho é levar a escritura ao cartório de registro de imóveis da cidade do imóvel e pedir o protocolo. O cartório tem 10 dias para registrar ou devolver com as exigências por escrito, e só depois dessa análise dá para saber se falta algum documento.
Como saber em nome de quem uma casa está registrada?
Peça a certidão da matrícula no cartório de registro de imóveis da cidade ou pela internet, no site do Registro de Imóveis do Brasil. A Lei 6.015/1973 diz que qualquer pessoa pode pedir essa certidão, sem explicar o motivo.
Posso dar como garantia uma casa que não está no meu nome?
Não. O artigo 1.420 do Código Civil diz que só quem pode vender um bem pode dar esse bem em hipoteca. Se a casa está registrada no nome de outra pessoa, é essa pessoa que teria de assinar.
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