Mãe recebe mensagem do filho com número novo, paga um boleto de R$ 1.950 para ajudar e descobre que ele estava dormindo no quarto ao lado o tempo todo

Mensagem de filho com número novo pedindo dinheiro é golpe: boleto pago não tem MED, e o primeiro passo é ligar para o banco

Mulher de meia-idade com uniforme hospitalar azul sentada no sofá da sala à noite, olhando o celular com ar preocupado, com a porta entreaberta de um quarto ao fundo do corredor

Sandra, o plantão e a mensagem do número novo

Sandra tem 52 anos e trabalha como auxiliar de enfermagem num hospital de Salvador. Naquela quinta-feira, o plantão terminou às 22h e ela chegou em casa, no bairro de Brotas, perto das 23h. Diego, o filho de 24 anos, tinha jantado cedo e estava com a porta do quarto fechada. Ela sentou no sofá e abriu o celular.

Havia uma mensagem de um número de Salvador que ela não tinha salvo. A foto do perfil era a de Diego, de boné, na praia. O texto dizia: “Mãe, troquei de número, salva esse. O outro deu problema.” Sandra salvou o contato como “Diego novo” e respondeu com um coração.

Dez minutos depois, veio o pedido.

A conversa, reescrita pela Prudents

“Mãe, tô com um problema. Tenho um boleto pra pagar hoje, vence meia-noite, e o aplicativo do meu banco travou. Consegue pagar pra mim? Amanhã cedo eu te devolvo.” E logo depois: “São R$ 1.950. Vou te mandar o código de barras aqui.”

Sandra perguntou se não dava para resolver no dia seguinte. A resposta veio rápida: depois da meia-noite o boleto ia cobrar multa e juros, e ele não tinha outro jeito de pagar naquela hora. Ela estava cansada, era o filho pedindo e o valor cabia na conta. Copiou o código, abriu o aplicativo do banco e pagou. Mandou o comprovante e recebeu de volta um “valeu, mãe, te amo”.

Passava da meia-noite quando ela foi até a cozinha beber água e ouviu, do corredor, o ronco que conhecia desde que Diego era criança. Abriu a porta do quarto devagar. Ele dormia de lado, com o celular carregando na mesinha. Sandra acordou o filho e mostrou a conversa. Diego leu sem entender: não tinha trocado de número, o celular estava funcionando e ele não tinha pedido nada a ninguém. O boleto estava pago, em nome de uma pessoa que nenhum dos dois conhecia.

O MED devolve um boleto pago para golpista?

Não. O Mecanismo Especial de Devolução, o MED, é um mecanismo do Pix e não vale para boleto. Na página sobre boleto fraudado, o Banco Central diz que o MED pode ser acionado quando o pagamento tiver sido feito por Pix, o que deixa o boleto de fora.

Isso não quer dizer que não haja nada a fazer. Para quem pagou um boleto a um golpista, o Banco Central orienta três coisas: registrar boletim de ocorrência; falar com a própria instituição o mais rápido possível e pedir que o dinheiro não seja depositado na conta do golpista; e, se o pagamento já tiver sido processado, registrar uma reclamação no Banco Central contra a instituição de quem recebeu, para que ela preste esclarecimentos sobre o caso.

A diferença que pesa

No Pix existe um procedimento com prazo e regras para pedir a devolução. No boleto, o que existe é o pedido ao seu banco, a reclamação e a investigação policial. O dinheiro pode ser recuperado, mas não há um mecanismo que garanta isso.

A reclamação no Banco Central tem um limite que vale conhecer antes. A página do serviço no gov.br explica que o Banco Central não interfere no caso individual: a reclamação serve para a instituição responder e para a fiscalização. Ela pode ser feita com conta gov.br prata ou ouro, com verificação em duas etapas, ou pelo telefone 145.

No caso da Sandra, o que mais contava era o tempo: quanto antes o banco dela soubesse, maior a chance de segurar o valor do outro lado.

O que fazer logo depois de pagar um boleto num golpe?

Fale com o seu banco pelo canal oficial na mesma hora, mesmo que seja de madrugada.

  1. Ligue para o seu banco pelo número que está atrás do cartão ou pelo aplicativo. Conte que o boleto foi pago num golpe e peça que a instituição tente impedir que o valor chegue à conta de quem recebeu. Anote o número do protocolo.
  2. Guarde tudo. O código de barras, o comprovante, a conversa inteira e o número que mandou a mensagem. Tire imagens da tela antes de bloquear o contato.
  3. Registre o boletim de ocorrência. Pode ser numa delegacia da Polícia Civil ou pela delegacia virtual do gov.br, nos estados que aderiram ao sistema. O Ministério da Justiça e Segurança Pública orienta contar como o boleto chegou e de quem, e compartilhar o boletim com o banco.
  4. Avise também o banco que emitiu o boleto. O mesmo guia do Ministério da Justiça pede que o banco emissor seja informado da possível fraude.
  5. Se o pagamento já foi processado, registre a reclamação no Banco Central contra a instituição de quem recebeu, anexando o boleto e o comprovante, como pede a página do Banco Central sobre boleto fraudado.

Quem teve a foto usada também tem o que fazer. A Polícia Civil do Paraná orienta quem descobre um número desconhecido usando a própria foto a registrar ocorrência, não trocar mensagens com o golpista, avisar os contatos, denunciar o número dentro do WhatsApp e deixar a foto do perfil visível só para contatos. A mesma página explica que não é preciso trocar de chip: o golpista usa outro número, sem ligação nenhuma com o da pessoa.

Foi o que Diego fez ainda de madrugada: mandou um aviso no grupo da família e para os amigos mais próximos dizendo que não tinha trocado de número.

E se o pagamento tivesse sido por Pix?

Aí o caminho seria o MED, pedido dentro do aplicativo do próprio banco. Quem fez um Pix por causa de golpe tem até 80 dias, contados da transferência, para pedir a devolução, como explica a Agência Brasil ao tratar da regra do Banco Central. A mesma reportagem lembra que a rapidez aumenta a chance de ainda haver dinheiro para bloquear.

Segundo o Senado Verifica, o banco de quem recebeu bloqueia os valores de forma preventiva, as duas instituições têm até sete dias para avaliar o caso e, com o MED 2.0, o rastreamento segue o dinheiro por várias contas. Mesmo assim, a devolução depende da análise e de haver saldo. O passo a passo está em caí no golpe do Pix, o que fazer.

Como saber se é mesmo o filho que trocou de número?

Ligue para o número antigo. Se o celular dele está funcionando, ele atende, e a história do número novo termina ali. Quando o número antigo não atende, ligue para alguém que esteja perto dele.

O próprio WhatsApp orienta, quando não há certeza de que a pessoa é quem diz ser, a fazer uma pergunta pessoal ou uma ligação de voz ou de vídeo. Na prática, isso vira alguns cuidados simples:

  • Uma ligação para o número de sempre, antes de salvar o contato novo.
  • Uma chamada de vídeo no número novo. Se aparecer um motivo para a câmera não funcionar, trate o pedido como suspeito até falar com a pessoa por outro caminho.
  • Uma pergunta que só a família sabe responder, como o nome do primeiro cachorro ou onde foi o último almoço de domingo.
  • O nome de quem vai receber. O Banco Central lembra que, no momento do pagamento, o sistema do banco mostra o beneficiário real do boleto e o valor. Se o nome não é do filho nem da empresa que ele citou, é mais um motivo para esperar.

Um combinado que ajuda

Combinar em família que pedido de dinheiro vindo de número novo só é atendido depois de uma ligação para o número antigo tira o peso da decisão de cada um. Ninguém precisa desconfiar do filho: basta seguir o que foi combinado.

No caso de Sandra, a mensagem tinha a foto certa, um jeito de falar parecido com o de Diego e um prazo que acabava à meia-noite. A pressa fazia parte do golpe. Quando a mensagem vem do número verdadeiro, porque a conta foi invadida, o caso é o de WhatsApp clonado; as outras formas estão em golpe do falso parente.

Mãe e filho de camiseta conversando encostados na pia da cozinha pela manhã, com xícaras de café e os dois celulares virados sobre a bancada
Cena ilustrativa criada com inteligência artificial: um combinado em família sobre pedidos de dinheiro ajuda mais do que desconfiar de cada mensagem.

O que aconteceu com os R$ 1.950 de Sandra

Sandra ligou para a central do banco às 0h20, pelo número atrás do cartão. A atendente registrou o protocolo e explicou que o pagamento já tinha sido processado. O banco ia comunicar a instituição de quem recebeu, mas não podia dar prazo nem prometer devolução.

Na manhã seguinte, antes de voltar ao hospital, ela registrou o boletim de ocorrência numa delegacia e levou a conversa impressa. À tarde, com a ajuda de Diego, abriu a reclamação no Banco Central pelo gov.br, anexando o boleto e o comprovante.

Três semanas depois, o dinheiro ainda não tinha voltado. O caso seguia com a instituição do beneficiário, e a polícia tinha o número usado no golpe e o nome de quem recebeu. Parte do valor ainda pode voltar, mas não há garantia.

O que mudou na casa foi o combinado: Diego deixou a foto do perfil visível só para contatos, e número novo pedindo dinheiro só recebe resposta depois de uma ligação para o número de sempre. A culpa por um golpe é de quem aplica o golpe, e Sandra fez o que dava para fazer na hora certa.

Fontes consultadas

A história de Sandra é um exemplo criado pela Prudents, com nomes e detalhes inventados. O golpe é real, e as regras e os caminhos descritos aqui têm fonte, listada abaixo.

Consulta feita em 28/09/2026.

Perguntas frequentes

Boleto pago para golpista pode ser cancelado?

Não existe cancelamento pelo aplicativo nem MED para boleto. O Banco Central orienta falar com o seu banco o mais rápido possível e pedir que o valor não seja depositado na conta do golpista, registrar boletim de ocorrência e, se o pagamento já tiver sido processado, reclamar no Banco Central contra a instituição de quem recebeu.

O MED vale para boleto?

Não. O Mecanismo Especial de Devolução é do Pix. Se o golpe tivesse sido pago por Pix, o pedido seria feito no aplicativo do banco em até 80 dias da transferência, e quanto antes, melhor.

O banco é obrigado a devolver o dinheiro de um boleto pago num golpe?

As orientações do Banco Central para boleto fraudado não trazem um mecanismo de devolução como o do Pix. O banco pode tentar segurar o valor com a instituição de quem recebeu, e o resultado depende de cada caso. Por isso o contato com o banco precisa ser imediato.

Como saber se o filho trocou mesmo de número?

Ligue para o número antigo ou para alguém que esteja com ele. Peça uma chamada de vídeo no número novo e faça uma pergunta que só a família sabe responder. Antes de pagar qualquer coisa, leia o nome do beneficiário que o aplicativo do banco mostra.

Quem teve a foto usada no golpe precisa trocar de número?

Não. A Polícia Civil do Paraná explica que o golpista usa outro número, sem ligação com o seu. O recomendado é registrar ocorrência, avisar os contatos, denunciar o número no WhatsApp e deixar a foto do perfil visível só para contatos.

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