Golpe do falso parente: a mensagem do número novo pedindo dinheiro
Chega uma mensagem de um número que você não conhece dizendo que é seu filho, sua filha ou seu neto, que trocou de celular e precisa resolver um pagamento agora. O pedido quase sempre termina em um Pix. Aqui está como essa conversa é montada, como confirmar quem está do outro lado usando o número que você já tem guardado e o que fazer quando o pagamento já foi feito.

Como a mensagem chega
O contato começa por um número desconhecido, no WhatsApp ou por SMS, e a primeira frase costuma explicar por que o número mudou. Algo como “oi mãe, meu celular quebrou e estou com um número novo, salva aí”. Nas primeiras trocas não se fala em dinheiro. Fala-se de coisas comuns: o trabalho, o almoço de domingo, o cachorro. Isso serve para você reconhecer um jeito de falar antes de o assunto virar pagamento.
Depois vem o problema. Um boleto que vence hoje, uma compra que precisa ser confirmada, um valor que a pessoa juraria que já pagou. E vem também o motivo pelo qual não dá para conversar por telefone: o número novo ainda não faz chamadas, o aparelho está no conserto, a pessoa está em reunião. Essa parte é a mais importante do golpe, porque uma ligação para o número antigo encerraria tudo em segundos.
Na sequência aparece o Pix. A chave nunca é da pessoa que diz estar falando com você. A explicação já vem pronta: “é a conta de um amigo”, “é a conta da empresa”, “minha conta está bloqueada porque perdi o celular”. Se o primeiro pagamento sai, chega um segundo pedido, com um valor diferente e um novo motivo.
É um dos golpes mais registrados pelos bancos. A Febraban contabilizou 73 mil ocorrências do golpe do WhatsApp relatadas por clientes no primeiro semestre de 2025, em levantamento divulgado em novembro daquele ano.
Por que a história convence
A conversa não tenta enganar você por uma hora. Ela precisa durar poucos minutos, o tempo entre o susto e o pagamento. E trabalha com três coisas bem comuns.
A primeira é que socorrer um filho vem antes de checar qualquer coisa. É o que qualquer família faz.
A segunda é que muita informação sobre nós está pública. Nome dos filhos, aniversário, cidade, viagem recente, nome do neto na legenda de uma foto: nada disso foi publicado pensando em segurança, e tudo isso pode voltar na conversa como se fosse prova de identidade.
A terceira é que quem escreve costuma deixar você preencher as lacunas. Uma mensagem que diz só “oi, é o seu filho” recebe de volta o nome, e daí em diante o golpista usa esse nome como se soubesse desde o começo.
Quem pagou estava respondendo a uma informação que não tinha como conferir com o relógio correndo. O golpe foi construído exatamente para isso, e a culpa é de quem o aplicou.
Como confirmar quem está do outro lado
A resposta é sempre a mesma, e ela não depende de você adivinhar se a história é verdadeira: saia da conversa que chegou e procure a pessoa pelo caminho que você já tinha.
- Ligue para o número antigo, o que está salvo na sua agenda. Não use o número novo nem nenhum contato que veio dentro da mensagem. Se o celular realmente quebrou, a linha em geral continua funcionando em outro aparelho.
- Se ninguém atender, procure outra pessoa da família. O irmão, o pai, a mãe, a esposa, um amigo próximo. Alguém vai saber onde a pessoa está.
- Não diga o nome primeiro. Se a mensagem pergunta “adivinha quem é”, quem está escrevendo não sabe. Peça que a pessoa diga o próprio nome.
- Olhe o nome de quem vai receber o Pix. A tela de confirmação mostra o nome e parte do CPF do dono da conta. Se não é o nome do seu filho, não é o seu filho pedindo.
- Diga que vai conferir. Você não deve explicação a ninguém. Se for mesmo seu filho, ele vai entender; se for golpe, a conversa costuma mudar de tom na hora.
Se quiser ir além, existem formas simples de olhar o número que apareceu. Reunimos o que funciona em como descobrir de quem é um número.

Quando chega um áudio com a voz certa
Hoje é comum o pedido vir acompanhado de um áudio curto, chorando ou com barulho em volta, com uma voz parecida com a da pessoa. Programas que imitam voz a partir de poucos segundos de gravação já são fáceis de usar, e qualquer vídeo publicado numa rede social serve de material. O CERT.br trata disso no fascículo de Inteligência Artificial da Cartilha de Segurança para Internet.
Isso muda o que você ouve e não muda o que você faz. Um áudio abafado, com choro e conexão ruim, já era difícil de reconhecer muito antes de existir imitação de voz, e é por isso que ele é gravado assim. O caminho continua sendo ligar para o número que você já tem.
Vale o mesmo para chamada de vídeo curta, com imagem travando e rosto mal iluminado. Quem está do outro lado precisa que você decida durante a conversa. Ligar de volta é o passo que ele não consegue acompanhar.
Se o Pix já foi feito
Avise o banco no mesmo dia, pelo aplicativo. Desde 1º de outubro de 2025 todo banco precisa ter, dentro do ambiente Pix do próprio aplicativo, uma opção para contestar uma transação feita por causa de golpe, sem depender de atendente. O Banco Central chama isso de autoatendimento do Mecanismo Especial de Devolução e diz que esse é o canal para pedir a devolução dos valores.
Abra o comprovante do Pix no extrato, use a opção de contestação, informe que o pagamento foi feito por causa de um golpe e guarde o número do protocolo. Se não encontrar a opção, ligue para o número do verso do cartão. Nunca ligue para nenhum telefone que tenha chegado na conversa do golpe.
Não existe garantia de devolução, e este artigo não vai prometer nenhuma. O que existe é prazo: quanto antes a contestação for feita, maior a chance de ainda haver saldo para bloquear. Pelas regras publicadas pelo Banco Central, a devolução pode ocorrer em até 11 dias depois da contestação.
O passo a passo completo, com o que dizer ao atendente e o que fazer se o banco negar, está em golpe do Pix: o que fazer se o pagamento já foi feito.
Onde registrar e denunciar
Registrar a ocorrência não desfaz o pagamento, mas cria o documento que o banco, a operadora e a polícia usam depois. Na maior parte dos estados dá para fazer isso pela internet, pelo sistema Delegacia Virtual do Ministério da Justiça e Segurança Pública, com login gov.br. O serviço vale para os estados que aderiram ao sistema.
O que aconteceu tem nome na lei, e a pena é maior quando a vítima é uma pessoa idosa. Os artigos do Código Penal que tratam disso estão em golpe do falso funcionário.
No WhatsApp, denuncie e bloqueie a conversa pelo próprio aplicativo antes de apagar. Tire foto da tela primeiro: o número, o horário e a chave Pix são o que sobra como prova. E ative a verificação em duas etapas do WhatsApp, que protege a sua conta de ser usada para aplicar essa mesma história nos seus contatos.
Se a sua conta já tiver sido tomada, o caminho é outro e está em clonaram meu WhatsApp: o que fazer.
O que dá para combinar em família antes
Uma conversa de quinze minutos resolve quase tudo aqui, e funciona melhor quando é combinada como regra da casa, valendo para todo mundo, em vez de aviso dado a uma pessoa só.
- Uma palavra combinada entre vocês. Escolham uma palavra ou uma expressão curta que não esteja em nenhuma foto, nenhum documento e nenhum cadastro: nada de nome de bicho, rua, escola ou data de nascimento. Falem em voz alta, pessoalmente ou por ligação, nunca por mensagem.
- Ninguém da família pede dinheiro por mensagem de número novo. Se a regra é essa, qualquer pedido assim já está errado, não importa o quanto a história pareça verdadeira.
- Ligar de volta não é falta de educação. Combinar isso antes tira o constrangimento de desligar no meio de uma conversa.
- Menos coisa pública. Vale revisar quem enxerga as publicações com nome de neto, viagem, internação e escola. É desse material que sai o detalhe que convence.
- Se acontecer, conta. O silêncio é o que faz o segundo pedido chegar. Falar sobre o assunto em casa protege quem ainda não recebeu a mensagem.
Se a conversa for com um pai ou uma mãe que mora longe, como proteger seus pais de golpes digitais tem sugestões de como puxar o assunto sem tirar a autonomia de ninguém.
As outras versões da mesma história
O roteiro é o mesmo em outros canais, e reconhecer isso ajuda mais do que decorar cada variação.
- A ligação em vez da mensagem. Uma voz em pânico dizendo que houve um acidente, e em seguida outra pessoa assume a linha se apresentando como advogado, médico ou policial. O pedido é para não contar a ninguém.
- A conta de um amigo que foi tomada. A mensagem vem do perfil verdadeiro de alguém que você conhece, porque a conta foi invadida. A resposta é a mesma: procure a pessoa por outro caminho.
- O pedido de código. “Mandei um código para o seu número sem querer, me passa?” Esse código é o que registra o WhatsApp de vocês em outro aparelho. Código de verificação não se repassa para ninguém.
- A ligação do falso funcionário do banco. Muda o personagem, mas a estrutura é idêntica. Está em golpe do falso funcionário do banco.
Uma diferença vale registrar: mensagem escrita deixa rastro que dá para fotografar, guardar e anexar a uma denúncia. Ligação não deixa. Se o contato veio por escrito, guarde antes de bloquear.
Perguntas frequentes
Como saber se a mensagem é mesmo do meu filho?
Você não decide isso dentro da conversa. Saia dela e ligue para o número antigo, o que já está salvo na sua agenda. Se ninguém atender, ligue para outra pessoa da família. Enquanto não falar com a pessoa por um caminho que você já tinha, não faça o pagamento.
O áudio tinha a voz do meu neto. Isso não prova nada?
Não. Programas que imitam voz a partir de poucos segundos de gravação já são fáceis de usar, e o CERT.br trata do assunto no fascículo de Inteligência Artificial da Cartilha de Segurança para Internet. Além disso, um áudio curto, chorando e com barulho em volta é difícil de reconhecer mesmo sem nenhuma tecnologia envolvida. A resposta continua sendo ligar para o número que você já tem.
Dá para recuperar o dinheiro do Pix?
Às vezes, e ninguém pode garantir. Conteste no aplicativo do banco no mesmo dia, pela opção de contestação dentro do ambiente Pix, e guarde o protocolo. Segundo o Banco Central, a devolução pode ocorrer em até 11 dias depois da contestação, quando ainda houver saldo para bloquear. Desconfie de qualquer pessoa que ofereça recuperar o valor mediante pagamento: isso é um segundo golpe.
Qual palavra combinar com a família?
Uma palavra ou expressão curta que não apareça em foto, documento ou cadastro. Evite nome de animal, rua, escola, apelido antigo e data de nascimento, porque tudo isso está em publicações antigas. Combine em voz alta, nunca por mensagem, e deixe claro que sem a palavra nenhum dinheiro é enviado, seja qual for a explicação.
Devo responder para descobrir quem é?
Não precisa. Continuar a conversa entrega informação sobre você e sobre a sua família, e não traz nada de volta. Fotografe a tela, bloqueie e denuncie o número pelo próprio WhatsApp, e avise as pessoas próximas de que essa mensagem está sendo enviada usando o nome de vocês.
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