Aposentada recebe ligação da “central do banco”, faz Pix de R$ 4.800 para uma conta de segurança e descobre que ainda tinha prazo para pedir o dinheiro de volta pelo MED

Pix feito para a “conta de segurança” da falsa central de banco: o MED dá prazo para pedir o dinheiro de volta

Senhora de cabelo grisalho curto sentada à mesa da cozinha de manhã, com o celular no ouvido e expressão tensa, um caderno aberto e uma xícara de café ao lado

A ligação das 9h40

Dona Célia tem 71 anos, deu aula de português por quase trinta anos e mora sozinha num apartamento no bairro do Cambuí, em Campinas. Naquela terça, estava na mesa da cozinha anotando a lista do mercado num caderninho quando o celular tocou. O homem se apresentou como Rodrigo, da central de segurança do banco, e falou o nome dela inteiro, sem errar uma letra. Depois leu os quatro últimos números do cartão, que eram os mesmos que ela tinha na carteira.

Ele perguntou se ela reconhecia uma compra de R$ 2.390 numa loja de eletrônicos em Manaus, feita minutos antes. Ela disse que não, que nunca tinha ido a Manaus. Rodrigo explicou, com calma, que alguém estava usando os dados dela e que o saldo da conta corria risco. Para proteger o dinheiro, o banco tinha aberto uma conta de segurança temporária no nome dela.

O que foi dito na ligação

“Dona Célia, a senhora vai fazer um Pix do saldo para a conta de segurança que eu vou passar. Em 24 horas, depois que a gente bloquear o acesso do fraudador, o valor volta inteiro para a sua conta. A ligação está sendo gravada e o seu protocolo é 4471-0932.”

Ela perguntou se não era melhor ir até a agência. Rodrigo respondeu que o fraudador podia esvaziar a conta antes do meio-dia e que ficaria na linha para acompanhar tudo. Ditou a chave, e o nome que apareceu na tela era de uma pessoa, que ele disse ser o analista responsável. Dona Célia mandou R$ 4.800, quase tudo o que tinha guardado.

Rodrigo agradeceu, disse que outro atendente ligaria no dia seguinte para devolver o valor e desligou. Às 16h, a filha, Renata, passou para tomar café. Dona Célia contou a história como quem conta uma coisa resolvida. Renata ficou quieta, pegou o próprio celular e ligou para o número impresso no verso do cartão da mãe.

A atendente do banco de verdade confirmou o que Renata temia: não havia compra em Manaus, ninguém do banco tinha ligado e não existia conta de segurança nenhuma. Os R$ 4.800 tinham ido para a conta de um desconhecido.

O que é o MED e quando ele pode ser usado?

O MED, Mecanismo Especial de Devolução, é a regra do Banco Central que permite pedir de volta um Pix enviado por causa de golpe, fraude ou coerção. Ele existe desde 2021 e hoje o pedido pode ser aberto pelo próprio aplicativo do banco, como explicou a Agência Brasil quando o botão de contestação passou a valer.

O mecanismo não serve para qualquer Pix. Segundo a Agência Brasil, em reportagem de setembro de 2026, ficam de fora o arrependimento de uma compra, o erro de valor, a chave digitada errada e o simples desacordo comercial, sem indício de fraude. O caso da Dona Célia se encaixa no que o MED cobre: ela foi enganada por alguém que se passou pelo banco para que ela mesma fizesse a transferência.

Desde fevereiro de 2026 vale o MED 2.0, que segue o caminho do dinheiro quando o golpista transfere o valor para outras contas. Antes, a busca ficava quase toda na primeira conta que recebeu o Pix.

Conta de segurança não existe

A Febraban, a federação dos bancos, afirma que os bancos nunca pedem que o cliente faça transferências para resolver problemas na conta e nunca ligam pedindo senha. Ligação que termina com pedido de Pix para proteger o seu dinheiro é golpe, mesmo quando a pessoa sabe seus dados.

O nome completo e os números do cartão servem justamente para a ligação parecer verdadeira. A responsabilidade pelo que aconteceu é de quem montou a ligação.

Qual é o prazo para pedir a devolução de um Pix pelo MED?

O prazo é de 80 dias, contados da data em que o Pix foi feito. O guia do MED publicado pelo Banco Central determina que o aplicativo avise quando uma transação passou desse limite, e a página de perguntas frequentes do Banco Central sobre o MED repete a mesma regra.

Em setembro de 2026 mudou outro prazo do MED, que vale para uma situação diferente: quem recebeu um Pix de forma legítima e teve o valor devolvido por causa de uma contestação falsa passou a ter 80 dias, e não mais 30, para reclamar. Para quem enviou o Pix por causa de um golpe, o prazo continua sendo de 80 dias a partir da transferência.

Mesmo assim, não vale esperar: a reportagem da Agência Brasil lembra que procurar o banco o quanto antes aumenta a chance de ainda existir saldo para bloquear. A Dona Célia pediu a devolução no mesmo dia, cerca de sete horas depois da transferência.

Como pedir o MED pelo aplicativo do banco?

O pedido é feito no aplicativo do banco de onde saiu o Pix, na opção de contestação, ou pelo telefone oficial do banco. Desde 1º de outubro de 2025, todo aplicativo com área Pix precisa oferecer esse autoatendimento, sem depender de um atendente.

  1. Abra o aplicativo do seu banco por conta própria e vá ao extrato ou ao extrato do Pix.
  2. Escolha o Pix que foi para o golpista e procure a opção de contestar ou de informar golpe. O nome do botão muda de um banco para outro.
  3. Informe o tipo de golpe. O aplicativo pergunta se foi golpe, invasão de conta, coerção ou outra fraude. Se nenhuma opção servir, há um campo para contar o que aconteceu.
  4. Guarde o número de protocolo. Pelo mesmo aplicativo você acompanha se o pedido está em análise, aprovado ou recusado, e quanto foi devolvido.
  5. Registre o boletim de ocorrência. O Ministério da Justiça orienta fazer o registro na Polícia Civil ou na delegacia virtual do seu estado, com o número que ligou, a data, a hora, o que foi dito e os dados da conta que recebeu o dinheiro.

Se preferir ligar, use o número que está no verso do cartão ou no site oficial do banco, e ligue de outro aparelho. A Febraban explica que, em algumas versões desse golpe, o criminoso pede que a pessoa ligue para a central e continua na linha para simular o atendimento. Foi por isso que a Renata usou o celular dela, e não o da mãe.

O que ter em mãos

O comprovante do Pix, o nome e a chave de quem recebeu, o número de onde veio a ligação e o horário. Anote o que lembrar da conversa enquanto está fresco.

Senhora e a filha sentadas lado a lado no sofá da sala, atentas, com a filha segurando o celular no viva-voz entre as duas
Cena ilustrativa criada com inteligência artificial: ligar para o banco pelo número oficial, de outro aparelho, é o primeiro passo para abrir o pedido de devolução.

O que acontece depois da contestação, e o dinheiro volta mesmo?

Depois da contestação, o banco de quem recebeu o Pix precisa bloquear o valor na hora, se ele ainda estiver na conta. Quando não há saldo suficiente, o guia do Banco Central manda bloquear o que estiver disponível. Com o MED 2.0, o pedido também pode alcançar as contas para onde o dinheiro foi transferido em seguida.

Os dois bancos têm até sete dias para analisar o caso. Se concluírem que houve golpe, a devolução vai direto para a conta da vítima, e o prazo total para isso é de até onze dias depois da contestação, segundo a Agência Brasil.

A devolução não é garantida. Ela pode ser total, parcial ou não acontecer, porque depende de existir dinheiro nas contas envolvidas. O Ministério da Justiça diz isso claramente na orientação para quem caiu num golpe com Pix: o banco vai tomar as medidas cabíveis, mas não há garantia do retorno dos valores.

Quando o MED não devolve tudo, o assunto não termina necessariamente ali, porque em alguns casos o banco pode ter responsabilidade. Os direitos de quem foi vítima estão explicados em o que o banco é obrigado a fazer quando você cai num golpe, e o passo a passo geral está em golpe do Pix: o que fazer.

O que aconteceu com os R$ 4.800 da Dona Célia

A contestação foi aberta às 16h30, ainda na ligação da Renata com o banco. A atendente passou o protocolo e explicou que a resposta viria pelo aplicativo. À noite, Renata registrou o boletim de ocorrência pela delegacia virtual.

Até agora, a Dona Célia não sabe quanto vai voltar. Se o golpista ainda não tiver movido o valor, ou se o rastreamento encontrar o dinheiro em outra conta, uma parte ou tudo pode ser devolvido. Se as contas estiverem vazias, pode não voltar nada pelo MED, e aí a família vai avaliar os outros caminhos.

O que ela já tem é o pedido feito dentro do prazo, no mesmo dia, com tudo registrado. E combinou com a filha o que fazer nas próximas ligações: se alguém disser que é do banco e falar em transferência, ela desliga e liga para o número do verso do cartão, de preferência do telefone da Renata.

Fontes consultadas

A história de Dona Célia é um exemplo criado pela Prudents, com nomes e detalhes inventados. O golpe é real, e as regras e os caminhos descritos aqui têm fonte, listada abaixo.

Consulta feita em 28/09/2026.

Perguntas frequentes

Quanto tempo eu tenho para pedir a devolução de um Pix feito num golpe?

São 80 dias contados da data do Pix, segundo o Banco Central. Mesmo assim, o melhor é pedir no mesmo dia, porque o golpista costuma tirar o dinheiro da conta rapidamente e a devolução depende de haver saldo.

O MED devolve o dinheiro de um Pix feito para golpista?

Pode devolver, mas não há garantia. Depois da contestação, o banco de quem recebeu bloqueia o que houver na conta, e os bancos têm até sete dias para analisar. Se a conta estiver vazia e o rastreamento não encontrar o valor em outra conta, a devolução pode ser parcial ou não acontecer.

Preciso ir à agência para abrir o MED?

Não. Desde outubro de 2025, os aplicativos com área Pix têm a opção de contestação, que funciona como autoatendimento do MED. Também dá para pedir pelo telefone oficial do banco, de preferência ligando de outro aparelho.

O banco pode ligar pedindo para eu transferir o dinheiro para uma conta segura?

Não. A Febraban afirma que os bancos nunca pedem transferência para resolver problemas na conta. Se alguém ligar com esse pedido, desligue e ligue você mesmo para o número do verso do cartão.

O MED vale para Pix que eu mandei errado para outra pessoa?

Não. O MED é para golpe, fraude e coerção. Chave digitada errada, erro de valor e arrependimento de compra ficam de fora, e nesses casos o caminho é pedir a devolução para quem recebeu.

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