Casal paga R$ 3.200 de sinal por uma casa de praia anunciada na internet, chega com as malas no feriado e encontra outra família morando no endereço

Casa de praia anunciada com fotos copiadas: como descobrir quem vai receber o sinal antes de fazer o Pix

Casal com duas malas de rodinha e uma bolsa de praia parado diante do portão de uma casa de praia, enquanto uma família desconhecida olha para eles da varanda, com coqueiros e céu azul ao fundo

O portão verde em Ubatuba

Bruno, de 36 anos, e Aline, de 34, moram em São Paulo e começaram a procurar uma casa para o feriado ainda em agosto. Numa noite, Aline encontrou numa rede social um perfil de aluguel de temporada em Ubatuba: dezenas de fotos de uma casa a duas quadras da praia, com varanda e churrasqueira, e uma fila de comentários de gente elogiando a estadia. A diária estava um pouco abaixo dos outros anúncios, mas não a ponto de parecer estranha.

O dono respondeu no mesmo dia, educado, por áudio. Disse que se chamava Renato e que a casa tinha sido do pai dele. Para segurar as datas, pediu metade do valor como sinal, R$ 3.200 por Pix, e o restante na entrega das chaves, e mandou um contrato em PDF com endereço, datas e até uma regra sobre som alto depois das 22h.

Na hora do Pix, o nome que apareceu na tela de confirmação era de uma mulher. Renato explicou que a conta era da esposa, porque a dele estava com problema depois de uma troca de banco. A explicação fazia sentido, e o casal pagou. Nas semanas seguintes, ele ainda mandou mensagem indicando um restaurante de frutos do mar.

Na véspera, a localização da chave não chegou, e Renato disse que mandaria de manhã. O casal saiu de São Paulo às 6h e chegou ao endereço pouco antes das 11h. O portão verde era o das fotos, e na varanda havia uma família inteira à mesa.

A dona da casa, Solange, ouviu a história no portão e mostrou no celular um anúncio antigo, de quando tinha alugado a casa num site de hospedagem, com exatamente as mesmas fotos. Disse que eles não eram os primeiros a aparecer ali. Bruno abriu a conversa com Renato: a foto do perfil tinha sumido, e a última mensagem não tinha sido entregue.

Pedir sinal para alugar casa de temporada é sinal de golpe?

Não, o pedido de sinal sozinho não indica golpe. Na locação para temporada, o artigo 49 da Lei do Inquilinato, a Lei 8.245/1991, permite que o locador receba os aluguéis de uma só vez e antecipadamente. O pagamento adiantado aparece também em anúncios verdadeiros, então o que resolve a dúvida é saber quem está recebendo o dinheiro e se essa pessoa tem o direito de alugar a casa.

O golpe se apoia em coisas que parecem prova. As fotos costumam ser de uma casa real, e o Creci do Ceará alerta para anúncios falsos feitos com fotos de imóveis que não estão disponíveis para aluguel. Comentários elogiosos podem vir de perfis criados para isso, e um contrato em PDF não diz nada sobre quem assina.

O que pesa antes do sinal

Um anúncio verdadeiro e um falso podem ter as mesmas fotos, o mesmo preço e o mesmo contrato. A diferença está na pessoa dona da conta que recebe o dinheiro, e é isso que vale checar antes de qualquer Pix.

No caso de Bruno e Aline, o sinal era normal para uma casa de temporada. O ponto sem resposta foi o nome na conta, e a explicação sobre a esposa foi escolhida por ser fácil de aceitar.

Como saber se as fotos da casa de praia foram copiadas de outro anúncio?

O jeito mais rápido é fazer uma busca reversa de imagem: você envia uma das fotos para um buscador de imagens, e ele mostra outros sites em que a mesma foto já apareceu. Se a casa surge num anúncio antigo, em outro site de hospedagem ou com outro nome de anfitrião, pare a negociação até entender a diferença. O passo a passo está no nosso guia de busca reversa de imagem.

  1. Procure o endereço num aplicativo de mapas. O Procon de Canoas, no Rio Grande do Sul, recomenda verificar em aplicativos de localização o endereço e a existência do imóvel. Compare a fachada da vista de rua com as fotos.
  2. Peça uma videochamada ao vivo na frente da casa, mostrando o que uma foto antiga não mostra: o número da casa e a placa da rua. A chamada não prova quem é o dono, porque alguém pode filmar uma casa que não é sua, mas uma recusa sem motivo claro já é uma informação.
  3. Pesquise o nome, o telefone e o perfil do anunciante em buscadores e em sites de reclamação. Perfil recente, com comentários muito parecidos entre si, pede mais cuidado.
  4. Peça indicação a quem conhece a cidade. O mesmo Procon sugere buscar indicações de pessoas conhecidas, e uma imobiliária local costuma saber se aquela casa é alugada e por quem.

No anúncio que o casal viu, as fotos eram as mesmas do site de hospedagem antigo, com outro nome de anfitrião, e é esse tipo de diferença que a busca reversa mostra antes do Pix.

Como conferir quem recebe o Pix antes de pagar o sinal?

Antes de concluir um Pix, o aplicativo do banco mostra o nome de quem vai receber o dinheiro, e esse nome precisa ser o do dono da casa ou o da imobiliária com quem você está fechando o negócio. O Procon de Canoas coloca essa checagem entre as dicas contra o falso aluguel e lembra que é comum o golpe usar contas de outras pessoas, os chamados laranjas.

  1. Pergunte o nome completo do proprietário antes de pedir a chave Pix e compare com o nome que aparece na tela de confirmação.
  2. Se o nome for diferente, interrompa. Conta da esposa, do sócio ou do caseiro são explicações comuns. Peça para pagar numa conta em nome de quem está alugando.
  3. Se houver corretor, peça o número de inscrição no Creci e verifique com o conselho do estado.
  4. Exija contrato e recibo. O Procon de Canoas orienta que o contrato traga datas, endereço, local de retirada das chaves, valor, forma de pagamento e número de hóspedes.

Quando a reserva é feita por uma plataforma

Em sites e aplicativos de hospedagem que recebem o pagamento no próprio sistema, valem as regras de cancelamento e reembolso da plataforma, e o Procon de Canoas recomenda finalizar o pagamento por ela. Se o anfitrião propõe sair do aplicativo e pagar por Pix direto, com desconto, a reserva perde essa proteção.

O MED devolve o sinal pago por Pix num anúncio falso?

Pode devolver, mas não há garantia. O Mecanismo Especial de Devolução, o MED do Banco Central, é o caminho de quem fez um Pix por causa de um golpe. Segundo a Agência Brasil, a vítima tem até 80 dias, contados da data do Pix, para pedir a devolução ao próprio banco. Quanto antes o pedido sai, maior a chance de ainda existir dinheiro na conta que recebeu.

Desde 1º de outubro de 2025, pela regra do Banco Central, os aplicativos precisam ter na área Pix uma opção para contestar a transação sem falar com atendente. E desde fevereiro de 2026 o MED passou a seguir o dinheiro mesmo depois que ele sai da primeira conta para outras. A devolução continua dependendo de haver saldo: se o valor já foi sacado ou espalhado, ela pode ser parcial ou não acontecer.

  1. Conteste o Pix no aplicativo do banco, na área Pix, no mesmo dia. Se não encontrar a opção, ligue para o número oficial que está no aplicativo e no verso do cartão.
  2. Guarde tudo antes que o perfil suma: imagens de tela do anúncio e da conversa, os áudios, o contrato, o comprovante, o nome e a chave de quem recebeu.
  3. Registre a ocorrência numa delegacia ou pela internet, na delegacia virtual dos estados que oferecem o serviço.
  4. Denuncie o perfil pelo menu de denúncia da própria rede social.

O roteiro completo está no artigo Golpe do Pix: o que fazer.

Casal sentado no meio-fio de uma rua de praia ao lado das malas, ele falando ao celular e ela anotando num caderno, no fim da tarde
Cena ilustrativa criada com inteligência artificial: contestar o Pix e registrar a ocorrência no mesmo dia aumenta a chance de ainda haver dinheiro na conta que recebeu.

O que Bruno e Aline conseguiram

Ainda na calçada, Aline contestou o Pix no aplicativo do banco, com o comprovante e um resumo do que tinha acontecido. Bruno registrou a ocorrência pela internet, na delegacia online do estado, anexando as imagens de tela que eles ainda tinham. Solange indicou uma pousada no centro com um quarto livre para duas noites.

O banco informou que o pedido seria enviado à instituição que recebeu o dinheiro. O perfil foi denunciado pelos dois e, no domingo, já não aparecia. Na volta para São Paulo, o casal ainda não sabia se os R$ 3.200 voltariam inteiros, em parte ou não voltariam: isso depende de a conta que recebeu o Pix ainda ter saldo, ou de o rastreamento achar o dinheiro em outra conta.

O feriado custou mais do que o planejado. O que eles têm agora é um pedido de devolução feito dentro do prazo e uma ocorrência registrada com as provas. A responsabilidade é de quem montou o perfil com as fotos da casa de outra família.

Fontes consultadas

A história de Bruno e Aline é um exemplo criado pela Prudents, com nomes e detalhes inventados. O golpe é real, e as regras e os caminhos descritos aqui têm fonte, listada abaixo.

Consulta feita em 28/09/2026.

Perguntas frequentes

Casa de temporada pode cobrar o aluguel inteiro adiantado?

Pode. O artigo 49 da Lei do Inquilinato permite que, na locação para temporada, o locador receba os aluguéis de uma só vez e antecipadamente. Por isso o pedido de sinal não prova que é golpe, e a checagem mais útil é o nome de quem recebe o dinheiro.

Como saber se um perfil de aluguel de temporada é falso?

Faça uma busca reversa das fotos, procure o endereço num aplicativo de mapas, peça uma videochamada ao vivo na frente da casa e compare o nome de quem vai receber o Pix com o nome do proprietário. Nenhum desses cuidados é garantia sozinho, mas juntos eles ajudam a perceber um anúncio montado com fotos copiadas.

Qual o prazo para pedir o MED depois de um Pix para golpista?

Até 80 dias contados da data do Pix, segundo a regra do Banco Central. O pedido é feito no seu banco, de preferência pelo próprio aplicativo, e quanto mais cedo ele sai, maior a chance de ainda haver saldo na conta que recebeu.

O banco é obrigado a devolver o sinal pago no golpe do aluguel?

Não existe devolução garantida. O MED analisa o caso e só consegue devolver se houver dinheiro disponível na conta que recebeu ou nas contas para onde ele foi. Mesmo assim, contestar rápido e registrar a ocorrência são os passos que mais ajudam.

Reservar pela plataforma de hospedagem é mais seguro do que pagar por Pix direto?

Quando o pagamento é feito dentro da plataforma, valem as regras de cancelamento e reembolso dela, e o Procon de Canoas recomenda finalizar o pagamento por esse caminho. Se o anfitrião pede para sair do aplicativo e pagar por Pix, essa proteção deixa de existir.

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