Golpe do amor: como o pedido de dinheiro aparece e o que fazer

No golpe do amor, a relação é construída de propósito, ao longo de semanas ou meses, para que o pedido de dinheiro chegue como um favor a alguém querido. Do outro lado existe alguém trabalhando com um roteiro pronto, e o sentimento criado é real mesmo quando o perfil não é. Aqui está como a conversa costuma ser montada, onde o dinheiro entra, como falar com alguém que ainda está dentro e o que fazer quando o pagamento já foi feito.

Mulher de uns sessenta anos sentada no sofá, pensativa, iluminada pela tela do notebook no fim da tarde

Como a relação é construída

O primeiro contato raramente é romântico. Ele chega como engano (“desculpa, mandei para o número errado”), como um comentário em uma foto, como um pedido de amizade de alguém que tem conhecidos em comum ou como uma conversa em aplicativo de relacionamento. O perfil parece completo: fotos de anos diferentes, trabalho, família, rotina.

Depois vem a parte que dá nome ao golpe. A conversa passa a ser diária, várias vezes por dia. A pessoa lembra de detalhes, pergunta como foi a consulta, manda bom dia antes de todo mundo. Em poucas semanas existe algo que ocupa um lugar importante na vida de quem está do outro lado, e isso é exatamente o produto sendo construído.

Três coisas costumam se repetir. A história pessoal explica por que nunca dá para se encontrar: trabalho em plataforma de petróleo, missão militar no exterior, médico em organização humanitária, engenheiro em obra em outro país. A conversa sai cedo do aplicativo onde começou e vai para o WhatsApp ou o Telegram, onde não há moderação nem denúncia fácil. E a chamada de vídeo, quando acontece, é curta, com imagem travando e áudio ruim.

O CERT.br trata do assunto em material gratuito para o público brasileiro, incluindo o vídeo Golpe do amor e o fascículo Golpes: Não se Deixe Enganar, da Cartilha de Segurança para Internet.

Onde o dinheiro entra na conversa

O primeiro pedido quase nunca é grande, e quase nunca parece um pedido. Ele chega como um problema contado em voz baixa, com constrangimento, e muitas vezes acompanhado da frase “não quero te incomodar com isso”.

Os motivos mais comuns se repetem porque funcionam:

  • Uma emergência de saúde. Uma internação, uma cirurgia de um parente, um remédio caro em outro país.
  • Uma encomenda presa. Um presente enviado para você que ficou retido e precisa de uma taxa para ser liberado. O pedido pode vir de uma terceira pessoa, que se apresenta como despachante ou funcionária de transportadora.
  • Uma conta bloqueada. A pessoa diz que o banco travou o acesso dela justamente agora e promete devolver assim que resolver.
  • Um investimento que ela quer dividir com você. Uma plataforma que mostra o valor subindo na tela e permite um primeiro saque pequeno, para provar que funciona. O saque seguinte trava e passa a exigir taxas.
  • A viagem para finalmente se encontrarem. A passagem, o visto, a multa na alfândega, o hotel. Esse pedido costuma vir depois de meses de conversa.

Quando um pagamento sai, vem outro. Não porque a pessoa foi “fácil”, mas porque o roteiro prevê essa continuação: cada novo obstáculo é apresentado como o último passo antes de tudo se resolver.

Filha sentada ao lado da mãe na escada da entrada de casa, com a mão no braço dela, conversando baixo
Cena ilustrativa: conversar sem acusação costuma abrir mais portas do que apresentar provas.

O que costuma aparecer na conversa

Nenhum sinal isolado prova nada, e é por isso que eles são difíceis de enxergar de dentro. O que ajuda é olhar o conjunto.

  • Nunca dá para se ver pessoalmente, e o motivo muda de mês para mês.
  • A chamada de vídeo é sempre curta ou nunca acontece, sempre por um problema técnico.
  • A intensidade não combina com o tempo. Planos de casamento, apelidos carinhosos e promessas de futuro nas primeiras semanas.
  • A conversa migra rápido do aplicativo onde começou para um mensageiro privado.
  • Existe um pedido de sigilo. Alguma versão de “sua família não vai entender o que a gente tem”.
  • A conta que recebe não é da pessoa. O nome na tela de confirmação do Pix é de um terceiro, com uma explicação pronta.
  • Fotos que aparecem em outros lugares. A busca por imagem às vezes mostra a mesma foto em perfis com nomes diferentes. Como fazer isso está em como fazer busca reversa de imagem.

Vale dizer o contrário também: perfil sem essas marcas não é garantia de nada, e relação que começou pela internet não é sinônimo de golpe. O que muda tudo é o momento em que aparece um pedido de dinheiro, de dado bancário ou de movimentação de valores.

Por que a forma de pagamento faz parte do golpe

O pedido quase sempre indica um caminho de pagamento que não volta atrás. No Brasil isso costuma ser o Pix para a conta de um terceiro, a compra de criptomoeda em uma corretora indicada, o envio de códigos de vale-presente ou a transferência internacional por empresa de remessa.

Isso não é acaso. Uma compra no cartão pode ser contestada com o emissor, e uma transferência bancária deixa rastro dentro de um sistema com regras de devolução. Códigos de vale-presente, por outro lado, são gastos em minutos e dificilmente voltam. Por que essa forma de pagamento é a preferida de quem aplica golpe está em golpe do vale-presente.

Um pedido para pagar por um meio que não pode ser desfeito é a informação mais útil da conversa inteira, porque ela não depende de você julgar se a história é verdadeira.

Quando o pedido é para receber, e não para enviar

Existe uma versão em que ninguém pede dinheiro a você. Pelo contrário: a pessoa diz que vai enviar um valor e pede que você receba na sua conta e repasse, ou que abra uma conta para “facilitar os negócios dela no Brasil”, ou que receba uma encomenda e reenvie.

Esse dinheiro costuma vir de outra vítima. Quem recebe e repassa entra no meio do caminho do valor roubado, e é a conta dessa pessoa que aparece no registro da polícia e no pedido de devolução do banco.

Desde a Lei nº 15.397, de 30 de abril de 2026, ceder conta bancária para que nela transitem recursos de atividade criminosa passou a ser crime com nome próprio no Código Penal, no artigo 171, parágrafo 2º, inciso VII, sujeito às mesmas penas do estelionato: reclusão de 1 a 5 anos e multa.

Se isso já aconteceu, procure o banco e registre a ocorrência por conta própria, contando como a conta passou a ser usada. Chegar antes com a sua versão e os prints da conversa é diferente de ser procurado depois.

Como falar com alguém que ainda está dentro

Essa é a parte mais difícil, e a mais comum: quem está lendo costuma ser o filho, a filha ou o irmão de alguém que está no meio de uma relação assim. Alguns pontos ajudam.

Apresentar prova raramente funciona sozinho. Mostrar que a foto é de outra pessoa costuma ser recebido como ataque, porque não está em jogo apenas um perfil, e sim uma relação que ocupa um lugar importante na vida da pessoa. Quem se sente acusado tende a se fechar, e a partir daí a conversa passa a acontecer escondida.

Pergunte em vez de afirmar. “Como vocês se conheceram?”, “vocês já conseguiram se ver por vídeo?”, “para qual conta você mandou?”. Perguntas deixam a pessoa reparar sozinha no que não encaixa, e isso costuma durar mais do que uma discussão vencida.

Não use palavras que envergonham. Ninguém volta a pedir ajuda para quem chamou de ingênuo. O adversário da conversa é quem aplicou o golpe, nunca quem foi enganado.

Tenha em mente o que é urgente. Se houver risco imediato de um valor grande sair, ou se estiver em jogo a venda de um bem ou um empréstimo, priorize isso e deixe a discussão sobre o perfil para depois.

Continue por perto mesmo se não for ouvido agora. Muita gente só consegue falar sobre o assunto semanas depois, e vai procurar quem não fez piada.

Se a conversa for com um pai ou uma mãe, como proteger seus pais de golpes digitais tem sugestões de como abrir o assunto sem tirar a autonomia de ninguém.

Se você já enviou dinheiro

Comece por quem ainda pode parar alguma coisa, e faça isso no mesmo dia.

  1. Conteste o Pix pelo aplicativo do banco. Desde 1º de outubro de 2025, todo banco precisa oferecer no ambiente Pix do aplicativo uma opção para contestar transação feita por causa de golpe, sem depender de atendente. O Banco Central chama isso de autoatendimento do Mecanismo Especial de Devolução e prevê devolução em até 11 dias depois da contestação. Não há garantia de devolução, e o prazo joga a favor de quem contesta cedo.
  2. Se houve compra no cartão, peça a contestação ao emissor. O caminho está em como contestar uma compra no cartão.
  3. Guarde tudo antes de apagar. Conversas, perfil, fotos, comprovantes, chaves Pix e nomes que apareceram na tela de confirmação. Fotografe a tela em vez de confiar que a conta continuará no ar.
  4. Registre a ocorrência. Na maior parte dos estados dá para fazer pela internet, pelo sistema Delegacia Virtual do Ministério da Justiça e Segurança Pública, com login gov.br.
  5. Encerre o contato e não avise que descobriu. Avisar costuma render uma última história, e às vezes uma ameaça de divulgar fotos ou conversas.

O passo a passo completo do lado bancário, com o que dizer ao atendente e o que fazer se o banco negar, está em golpe do Pix: o que fazer se o pagamento já foi feito.

O que esperar daqui para frente

Duas coisas costumam acontecer depois, e saber disso antes evita um segundo prejuízo.

A primeira é o contato de alguém oferecendo recuperar o dinheiro. Pode se apresentar como advogado, como empresa especializada, como investigador ou até como servidor público, e sempre existe um pagamento antecipado, chamado de taxa, custa processual ou honorário. Essa oferta é um segundo golpe, e muitas vezes vem de quem aplicou o primeiro, porque a lista de quem já pagou é vendida entre quadrilhas.

A segunda é o retorno da própria relação, por um perfil novo, com outro nome, às vezes se apresentando como alguém que conheceu a história e quer ajudar. Bloquear em um aplicativo não impede o contato em outro.

Sobre a devolução, a resposta honesta é que depende da forma de pagamento e do tempo. Compra no cartão tem a contestação junto ao emissor. Pix tem o mecanismo do Banco Central, sem garantia. Criptomoeda, vale-presente e remessa internacional raramente voltam.

E vale registrar o tamanho disso. Segundo o DataSenado, 24% dos brasileiros com 16 anos ou mais caíram em algum golpe digital nos 12 meses anteriores à pesquisa divulgada em outubro de 2024, o equivalente a mais de 40 milhões de pessoas. Quem passou por isso não está sozinho nem foi escolhido por algum defeito pessoal.

Perguntas frequentes

Dá para recuperar o dinheiro enviado?

Depende de como o pagamento foi feito e de quanto tempo passou, e ninguém pode garantir. No Pix, conteste pelo aplicativo do banco no mesmo dia: o Banco Central prevê devolução em até 11 dias depois da contestação, quando ainda houver saldo. Compra no cartão pode ser contestada com o emissor. Criptomoeda, vale-presente e remessa internacional raramente voltam.

Como saber se estou falando com uma pessoa real?

Nenhum teste isolado resolve, mas alguns ajudam: busque as fotos por imagem para ver se aparecem em outros perfis, proponha uma chamada de vídeo comum e repare se ela sempre esbarra em um problema técnico, e observe o nome que aparece na tela de confirmação de qualquer pagamento. O ponto que mais informa não é a foto, é o pedido de dinheiro.

Minha mãe está nessa situação e não quer ouvir. O que faço?

Troque a prova pela pergunta. Pergunte como se conheceram, se já se viram por vídeo, para qual conta o dinheiro foi. Evite palavras que envergonham, porque elas fazem a conversa passar a acontecer escondida. Se houver risco imediato de um valor grande sair, de um bem ser vendido ou de um empréstimo ser feito, cuide disso primeiro e deixe a discussão sobre o perfil para depois.

Recebi dinheiro na minha conta e repassei. Isso é problema para mim?

Pode ser. Esse valor costuma vir de outra vítima, e é a sua conta que aparece no registro. Desde a Lei nº 15.397, de 30 de abril de 2026, ceder conta bancária para movimentar recursos de atividade criminosa é crime previsto no artigo 171, parágrafo 2º, inciso VII, do Código Penal. Procure o banco, registre a ocorrência por conta própria e guarde as conversas que mostram como isso aconteceu.

Devo confrontar a pessoa antes de encerrar o contato?

Não é necessário. Avisar que descobriu costuma render mais uma história bem contada e, em alguns casos, ameaça de divulgar fotos ou conversas. Guarde os prints, encerre o contato e registre a ocorrência. Se houver ameaça de divulgação de imagens, leve isso à polícia junto com o restante.

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