Golpe em marketplace: pagamento por fora e anúncio falso

Comprar e vender entre pessoas é onde a proteção da plataforma é mais fina, e os golpes dos dois lados exploram exatamente essa fresta. Quem compra paga por um produto que nunca é enviado. Quem vende recebe um comprovante que não corresponde a dinheiro nenhum, ou um pedido para devolver um valor pago a mais. Este guia cobre os dois lados: o que conferir antes de pagar, os pedidos que um comprador de verdade nunca faz e o que fazer depois que o pagamento foi feito.

Duas pessoas entregando uma caixa ao lado do porta-malas aberto de um carro no estacionamento de um supermercado

Por que negociar com uma pessoa é diferente de comprar de uma loja

Marketplace é o nome dado à plataforma que reúne vários vendedores no mesmo lugar. Parte dos produtos é vendida e entregue pela própria plataforma, e parte é vendida por terceiros, que podem ser lojas ou pessoas físicas. Essa diferença muda tudo, inclusive a lei que se aplica.

Quando quem vende é um fornecedor, ou seja, alguém que faz disso atividade habitual, a relação é de consumo e vale o Código de Defesa do Consumidor, com a definição de fornecedor no artigo 3º. Quando é uma pessoa vendendo o próprio sofá usado, não existe relação de consumo entre vocês dois: é um negócio civil comum, e o Procon não tem como tratar aquilo como reclamação contra empresa.

O que sobra, na prática, é a proteção que a própria plataforma oferece: pagamento retido até a entrega, avaliação de vendedor, canal de mediação e registro da conversa. Nenhuma dessas coisas existe do lado de fora. É por isso que quase todo golpe de marketplace passa pelo mesmo ponto, o convite para conversar e pagar em outro lugar.

Comprando: o que conferir antes de pagar

A sequência abaixo resolve a maior parte dos anúncios falsos, e leva poucos minutos.

  • Olhe quem é o vendedor, não só o produto. O CERT.br, no fascículo Comércio via Internet, recomenda identificar o vendedor do produto dentro da plataforma, olhar a pontuação dele e ler as avaliações de vendas anteriores, prestando atenção em prazo de entrega e em como ele se comporta em troca e devolução.
  • Desconfie de conta recém-criada com muitos anúncios caros. Perfil aberto há poucos dias, sem histórico, anunciando vários aparelhos de alto valor ao mesmo tempo, é o formato mais barato de montar.
  • Procure as fotos fora do anúncio. Uma busca por imagem mostra quando a mesma foto está em dezenas de anúncios de cidades diferentes. Foto tirada na hora, com um detalhe que você pediu, é mais difícil de falsificar.
  • Compare o preço com o mercado. Não para descartar tudo que é barato, mas para saber quanto abaixo do normal aquilo está e pedir explicação antes de pagar.
  • Leia as condições da venda dentro da plataforma: frete, prazo, política de devolução e o que acontece se o produto não chegar.

E o ponto mais importante: mantenha a conversa, o pagamento e o envio dentro da plataforma. Ali fica o registro, e é esse registro que sustenta qualquer pedido de devolução depois.

Mulher fechando uma caixa de papelão com fita na mesa da cozinha, com a etiqueta de envio pronta
Cena ilustrativa: conferir se o valor caiu na conta antes de fechar a caixa e enviar o produto.

Sair da plataforma é o pedido que muda tudo

O convite costuma vir educado e com uma justificativa razoável: a taxa da plataforma é alta, o sistema está com problema, fica mais rápido por mensagem, o pagamento direto sai mais barato. Às vezes é verdade que sai mais barato. O que some junto com a taxa é toda a proteção.

Fora da plataforma, você perde o pagamento retido até a entrega, o histórico da conversa como prova, a avaliação do outro lado, o canal de mediação e a possibilidade de acionar o suporte. Passa a ser a sua palavra contra a de alguém que você não sabe quem é.

O CERT.br é direto sobre isso em dois fascículos: faça todo o processo de compra e venda dentro da plataforma, e desconfie de pedido de pagamento ou de negociação fora dela. O mesmo vale para o pedido de pagar uma taxa extra por outro canal depois que a compra já foi feita.

Se o outro lado insiste em sair, essa insistência é a informação. Não é grosseria dizer que você prefere manter tudo por dentro.

Vendendo: o comprovante que chega antes do dinheiro

Este é o golpe mais comum contra quem vende, e ele é quase sempre a mesma cena. O comprador aparece com pressa, pede para retirar o produto naquele dia, faz o pagamento e manda a imagem do comprovante. A imagem tem seu nome, o valor certo, a data de hoje e cara de comprovante de banco. Só que ela pode ter sido montada em qualquer editor de imagem.

A regra que resolve isso é curta: comprovante não é dinheiro. O CERT.br recomenda, para recebimento por Pix, conferir se o valor realmente caiu na sua conta antes de entregar o produto. Não olhe a imagem que o comprador mandou, olhe o extrato dentro do aplicativo do seu banco, aberto por você.

Duas variações da mesma cena merecem atenção:

  • A ligação no meio da entrega. Alguém liga se dizendo do banco para confirmar que o dinheiro caiu, ou o comprador mostra a tela do próprio celular. Nenhuma das duas coisas é o seu extrato.
  • A pressa como argumento. O carro está em fila dupla, o estacionamento vai fechar, o motoboy está esperando. A pressa existe para você entregar antes de olhar a conta.

Se o dinheiro não está no seu extrato, não existe venda ainda. Isso não é desconfiança com pessoa honesta: comprador honesto espera dois minutos sem problema nenhum.

Vendendo: o Pix a mais e o pedido de devolver para outra conta

Aqui está a versão brasileira de um golpe clássico. O comprador manda um valor maior que o combinado, diz que errou e pede a devolução da diferença. Ou manda um Pix dizendo que foi por engano e pede que o dinheiro volte para uma chave diferente da que enviou.

O CERT.br explica no fascículo Golpes: Evite Fraudes por que isso custa dobrado. Se o dinheiro não voltar para a conta de origem, o golpista ainda pode pedir o estorno pelo Mecanismo Especial de Devolução do Banco Central. No fim, você devolve duas vezes: uma para a conta que ele indicou e outra pelo estorno.

O caminho seguro é o mesmo em qualquer variação:

  • Confirme no extrato do seu banco se o Pix realmente caiu, e qual foi o valor exato.
  • Use a opção de devolução dentro do aplicativo ou do site do banco, que manda o dinheiro de volta para a conta de origem.
  • Não faça um Pix novo para a chave que a pessoa mandou, por mais convincente que seja a história do erro.

Vendendo: o código de seis dígitos que o comprador pede

Outra abertura de conversa que só existe para tomar a sua conta. O suposto comprador diz que precisa confirmar que o anúncio é real, que você é uma pessoa de verdade, ou que a plataforma pede uma verificação. Ele avisa que vai chegar um código no seu celular e pede que você leia o número para ele.

O código que chega é o do seu aplicativo de mensagens ou o da sua conta na plataforma. Quem digitar ele entra na conta. Foi o golpista que pediu o código, e foi ele quem disparou o envio.

A orientação do CERT.br não tem exceção: não compartilhe usuário, senha nem códigos de verificação com ninguém. Nenhuma plataforma, nenhum banco e nenhum comprador precisa desse número, porque ele é enviado para você justamente para provar que a conta é sua.

Vale também ativar a verificação em duas etapas no aplicativo de mensagens e na sua conta da plataforma. Ela adiciona um segredo que não chega por mensagem, e é a diferença entre perder e não perder a conta quando o código escapa.

Quando a entrega é pessoalmente

Boa parte das negociações entre pessoas termina em um encontro. Algumas regras simples reduzem bastante o risco, e nenhuma delas depende de saber quem é o outro.

  • Escolha lugar público, movimentado e de dia. Estacionamento de shopping, entrada de mercado, praça movimentada. Evite residência, sua ou dele, e rua deserta.
  • Leve alguém. Duas pessoas mudam o cálculo de quem estava pensando em roubar em vez de comprar.
  • Confira o produto antes de pagar, e o extrato antes de entregar. Ligue o aparelho, teste, confirme o número de série. Do outro lado, abra o aplicativo do seu banco e veja o valor na conta.
  • Combine tudo dentro da plataforma. Endereço, horário e valor registrados no canal oficial valem como prova. Combinado só por telefone não deixa rastro.
  • Desista sem cerimônia se algo mudar na última hora. Troca de ponto de encontro, pedido para subir no apartamento, pressa repentina. Dar meia-volta não custa nada.

Se o pagamento já foi feito

O roteiro oficial do Ministério da Justiça para quem teve perdas financeiras começa pelo banco, passa pelo boletim de ocorrência e segue com o acompanhamento da conta. Para um caso de marketplace, o roteiro fica assim:

  • Avise o banco ou o emissor do cartão primeiro, pelo aplicativo, pelo site que você digitou ou pelo telefone atrás do cartão. Se foi Pix, peça a abertura do Mecanismo Especial de Devolução. Se foi cartão, peça a contestação.
  • Abra a reclamação dentro da plataforma, mesmo que a conversa tenha saído dela em algum momento. Anúncio, mensagens e dados do outro perfil ficam registrados ali, e essa é a via mais rápida para derrubar o anúncio e evitar que outra pessoa pague.
  • Registre o boletim de ocorrência pela delegacia virtual do seu estado. É o que permite ao banco tratar o caso como fraude.
  • Se perdeu o acesso à conta, use o caminho de recuperação do próprio aplicativo e avise seus contatos, porque a conta tomada costuma ser usada para pedir dinheiro a quem conhece você.
  • Se o vendedor for uma empresa, a reclamação também cabe no consumidor.gov.br e no Procon do seu estado.

E uma coisa que precisa ser dita: um anúncio falso bem-feito engana gente experiente todo dia. A culpa é de quem monta o anúncio, não de quem acreditou nele.

Fontes consultadas

As regras e os serviços citados foram checados em 23/09/2026 nestas páginas:

Perguntas frequentes

Um comprador quer me mandar um código para confirmar que eu sou real. Posso passar?

Não. O código de seis dígitos que chega por mensagem existe para provar que a conta é sua, e quem digitar ele entra na conta. Nenhuma plataforma, banco ou comprador precisa desse número. O CERT.br orienta a nunca compartilhar usuário, senha ou código de verificação. Ative também a verificação em duas etapas no aplicativo de mensagens e na sua conta da plataforma.

O comprador pagou um valor maior e pediu a devolução da diferença. O que fazer?

Confirme primeiro no extrato do seu banco se o valor caiu mesmo e quanto foi. Se houver devolução a fazer, use a opção de devolução dentro do aplicativo ou do site do banco, que manda o dinheiro de volta para a conta de origem. Nunca faça um Pix novo para outra chave: o CERT.br explica que, nesse caso, o golpista ainda pode pedir o estorno pelo Mecanismo Especial de Devolução, e você devolve duas vezes.

É mais seguro pagar pelo marketplace ou direto para o vendedor?

Pelo marketplace. Dentro da plataforma existem pagamento retido até a entrega, histórico da conversa como prova, avaliação do vendedor e canal de mediação. Pagando direto, mesmo com desconto, tudo isso deixa de existir. O CERT.br recomenda fazer todo o processo de compra e venda dentro da plataforma.

O vendedor quer continuar a conversa em um aplicativo de mensagens. Isso é problema?

É o pedido que mais aparece nesses golpes, porque tira a negociação do lugar onde ela fica registrada. Conversar por fora já enfraquece a sua posição; pagar por fora elimina a proteção da plataforma. Se o outro lado insiste depois de você dizer que prefere manter tudo por dentro, essa insistência é a informação.

Onde denunciar um golpe de marketplace?

Comece pelo seu banco, pedindo o Mecanismo Especial de Devolução se foi Pix ou a contestação se foi cartão. Abra a reclamação dentro da plataforma, para derrubar o anúncio. Registre o boletim de ocorrência pela delegacia virtual do seu estado. Se quem vendeu era uma empresa, e não uma pessoa vendendo item usado, a reclamação também cabe no consumidor.gov.br e no Procon.

Continue lendo

Ver todos os artigos

Compartilhe este artigo